Menina a caminho e outros textos (Raduan Nassar)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012 |

 
Lançado em 1998 e premiado com o Prêmio Jabuti, Menina a caminho e outros textos, é uma coletânea de contos de Raduan Nassar que reúne textos de diversas épocas.
O conto que carrega o nome do livro, Menina a caminho, é um soco no estômago! Primeiro trabalho de Nassar. O narrador leva o conto todo de uma forma tão leve e singela. De forma descritivista, o leitor é levado a imaginar todo o caminho da menina ao longo da cidade e a ruptura se dá uma forma extremamente brutal e inesperada.
Hoje de Madrugada é um convite sensorial como só o Nassar sabe fazer. O leito aguardo durante toda a trama o ato. 
O ventre seco se assemelha a Um copo de cólera. Os dois personagens parecem ser exatamente os mesmos e as acusações exatamente as mesmas, o que não faz dele um conto ruim, mas muito pelo contrário.
Aí pelas três da tarde me mostra uma vida de qualquer um com um final com um quê de Let it be demais.
Já o último conto, Mãozinhas de Seda, é de uma sutileza sem tamanho, assim como toda a obra.
Fica a tristeza de não ter mais obras do Nassar pra devorar, o que pode ser bom, é claro.

Em seguida, um menino vai sussurrar um palavrão escrito no muro que ela não compreenderá. Todo o seu caminho é a preparação para a descoberta de algo cujo sentido lhe foge. Durante a viagem pela cidade, ela é ignorada ou torna-se motivo de chacota. Apenas o velho sapateiro lhe dirige um olhar de carinho. Este seu périplo solitário leva-a ao ponto das atenções da cidade, o armazém de seu Américo, fazendo com que a sua história se misture ao escândalo. Entrando sorrateiramente no armazém fechado, farta-se com a manjubas que encontra no estoque. Como se trata de um texto com um caráter sexual, que se vale da dicção popular, é possível ver neste simples ato de alimentar-se de peixes secos um significado que está além dele. Manjuba é uma designação chula para pênis. A conotação sexual deste episódio é reforçada pelo fato de logo em seguida ela regurgitar o alimento, completando assim o ciclo sexual. Aolongo de seu caminho, ela se fixa em alguns símbolos fálicos, tais como a pá com que um jovem bate o sorvete, a muleta do sapateiro e o cajado na imagem de João Batista.

Marcello M.

2 comentários:

Flávia disse...

Raduan Nassar é um dos meus escritores preferidos. É um contra-sennso que não seja tão acolhido pelo grande público quando Lispector e C. F. Abreu.

Carol Bauer disse...

Parabéns pelo blog!!!

Tem um selinho pra vcs lá no meu: cerebroquefala.blogspot.com

Beijos
Carol