Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)

domingo, 18 de dezembro de 2011 |



Há duas maneiras de ler Grande sertão: veredas. A primeira, e que tem sido objeto de muitos ensaios eruditos, volta-se para a verdadeira revolução lingüística, constante na obra de Guimarães Rosa e da qual este livro talvez seja a manifestação mais expressiva. Focalizam-se então a utilização e valorização do vocabulário e da sintaxe regionais (que muitas vezes é o que há de mais clássico na língua), a invenção de palavras com fins expressivos, e muitas outras das várias facetas de sua minuciosa exploração da narrativa. A segunda que independe totalmente de qualquer aparato crítico, é deixar-se simplesmente dominar pela força da história fascinante, extensa, movimentada, imprevista, da qual a linguagem de G.R. é apenas o instrumento adequado, porque reflexo fiel do meio em que se desenrola, e com o qual o autor se identifica de maneira profunda. Em Guimarães Rosa o sertão é intuído e não analisado, reproduzido e não descrito. Ele não pretende explicá-lo, mas recriá-lo, abordando as coisas e os fatos narrados por contato direto e por intuição, reduzindo ao mínimo o papel do conhecimento racional na apreensão da realidade que transmite ao leitor: o sertão é uma visão. Riobaldo, o narrador , dá-nos a chave para o entendimento dessa visão, ao dizer , logo ao início: “O sertão está em toda parte... o sertão é do tamanho do mundo.” É o regional, que se projeta e conquista dimensão universal, sintetizada na condição humana – o homem é o homem, no sertão de Minas ou em qualquer outro lugar do mundo. Como disse Antônio Cândido: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico – tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional, para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor , júbilo, ódio, amor , morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o Mundo.


E, aquilo forte que ele sentia, ia se pegando em mim — mas não como ódio, mais em mim virando tristeza. Enquanto os dois monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia. Até que viesse a poder vingar o histórico de seu pai, ele tresvariava. Durante que estávamos assim fora de marcha em rota, tempo de descanso, em que eu mais amizade queria, Diadorim só falava nos extremos do assunto. Matar, matar, sangue manda sangue. Assim nós dois esperávamos ali, nas cabeceiras da noite, junto em junto. Calados. Me alembro, ah. Os sapos. Sapo tirava saco de sua voz, vozes de osga, idosas. Eu olhava para a beira do rego. A ramagem toda do agrião — o senhor conhece — às horas dá de si uma luz, nessas escuridões: folha a folha, um fosforém — agrião acende de si, feito eletricidade. E eu tinha medo. Medo em alma.
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Marcello M.

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