O homem invisível (H. G. Wells)

terça-feira, 4 de outubro de 2011 |


Quem não gostaria de experimentar as sensações de ser invisível? Subtrair-se ao olhar de seus semelhantes, que delícia! Ser livre para bisbilhotar sem ser pressentido, desvendar segredos e presenciar atos e fatos que normalmente se ocultam a todos, que perspectiva sedutora! A idéia de ser invisível acarreta uma noção de extrema liberdade, de livre-arbítrio, e traz consigo a de impunidade, pois o indivíduo se furtaria não só à vista dos homens como à lei e à justiça.
O Homem Invisível, de H. G. Wells, mostra, porém, como essa liberdade e essa impunidade são  ilusórias. Griffin, o físico que inventa um meio de se tornar invisível, deixando-se embriagar pela noção do incrível poder de que dispõe, percebe de imediato o outro lado da questão: em pleno inverno, só pode andar nu para não se denunciar, o que lhe provoca espirros e gripe; vê-se obrigado a usar permanentemente máscara e roupas para "existir" e comunicar-se com o mundo; não consegue, e em grande parte devido a seu gênio irascível, estar em boas relações com ninguém, o que lhe frustra as ambições de ser "reconhecido" como gênio e como uma pessoa especial. Ao invés disso, é caçado como um marginal da pior espécie, um inimigo público, o símbolo da maldade e da estranheza que o homem comum enxerga em tudo aquilo que não compreende.
E ele próprio, por fim, parece aceitar e desejar essa marginalidade. Mais ainda: ciente de que a  invisibilidade é uma força, um poder de que se acha investido, sonha com um reinado de Terror sobre as pequenas aldeias que atravessa. Todavia, tendo-se acumpliciado com um vagabundo ao qual confia os livros em que estão escritos os seus trabalhos e a fórmula secreta, em código, de como se fazer invisível, vê-se roubado e recorre a um antigo companheiro de faculdade, a quem conta seu segredo, e que o atraiçoa chamando a polícia. Na perseguição que se segue, o Homem Invisível é morto, e seu corpo vai aos poucos aparecendo aos olhos de todos.
Não se trata de um romance escrito apenas para entretenimento. H. G. Wells não se limita a desenvolver uma história, seu propósito é fazer o leitor refletir. O fim trágico de Griffin, quando dispunha de um invento revolucionário que poderia ser utilizado em favor de todos, revela a incompreensão desse mesmo invento não só de parte do público mas também do próprio inventor, que pretendia usá-lo em proveito exclusivamente pessoal. Em vez da glória e do poder, Griffin obtém  apenas o ódio, o medo e a repugnância. E como todo ser de exceção, é visto com temor e desconfiança.
Aliás, o leitor habitual de Wells já deve ter percebido que em seus romances de antecipação, desde A Máquina do Tempo, Wells coloca o problema da dificuldade ou mesmo da total incomunicação do ser dito excepcional com seus semelhantes. Em O Homem Invisível esta incomunicação atinge o limite da rejeição total com a perseguição e morte do inventor. E o fato de caracterizar Griffin como um albino contribui naturalmente para reforçar essa idéia. Griffin já era, antes de sua descoberta, um ser de exceção, um marginal dentro da sociedade, estigmatizado pelo seu mal incurável. O que provavelmente o fez tão irritadiço e certamente colaborou para a sua ruína.

O estranho não ia à igreja e, na verdade, não fazia a menor diferença, nem em seu vestuário entre o domingo e osoutros dias não religiosos. Trabalhava, na opinião da sra. Hall, sem a menor regularidade. Alguns dias descia cedo e atarefava-se sem parar. Em outros, levantava-se tarde, andava pelo quarto, resmungando alto, horas a fio, fumava, e dormia na poltrona junto à lareira. Não tinha a menor  comunicação com o mundo para além da aldeia. Seu humor continuava a ser imprevisível; a maior parte do tempo tinha a atitude de um homem que sofria uma provação quase insuportável e, de vez em quando, partia, arrancava, esmagava ou quebrava coisas, em acessos espasmódicos de violência. Parecia viver sob uma irritação crônica, da maior intensidade. O hábito de falar sozinho em voz baixa ia se agravando cada vez mais, porém, embora a sra. Hall ouvisse atentamente, tudo lhe parecia sem pé nem cabeça. Raramente saía durante o dia mas, ao cair da tarde, tremendamente embuçado, quer o tempo estivesse frio ou não, fazia-o, escolhendo os caminhos mais desertos e sombreados por árvores ou encostas. Seus óculos enormes e o horrível rosto enfaixado, sob o toldo do chapéu, surgiam da escuridão repentina e desagradavelmente diante de um ou outro trabalhador a caminho de casa; e Teddy Henfrey, tropeçando à saída do "Scarlet Coat", uma noite, às nove e meia, assustou-se vergonhosamente com a cabeça do estranho, que parecia uma caveira (estava caminhando de chapéu na mão), subitamente iluminada pela luz da porta aberta. As crianças que o viam à noite sonhavam com fantasmas e era discutível se ele detestava os garotos mais do que estes o detestavam, ou o inverso — mas, certamente, havia uma aversão bem definida de ambos os lados.
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Marcello M.

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