Um artista da fome e A construção (Franz Kafka)

terça-feira, 16 de agosto de 2011 |


Ler Kafka é um exercício angustiante, que exige do leitor a perseverança de segui-lo em suas narrativas cheias de aporias que parecem ter abandonado a esperança há bastante tempo, enquanto usa dessa desesperança para arrastar o leitor para enxergar a existência de um prisma bastante estarrecedor.

O autor tcheco teve uma vida atribulada pela relação complicada com o pai, pela acabrunhante e monótona vida de trabalhador com rotina, exigências e repetições esvaziadas de sentido; e, relacionamentos cheios de idas e vindas (com direito a dois noivados fracassados [com a mesma mulher!]). Quando se olha a partir da vivência de Kafka e sua experiência em relação à humanidade, suas narrativas e seu pessimismo fatalista não chocam mais tanto, mas um novo tipo de choque sobre nós se abate: que as condições que tornaram Kafka o que ele foi não são lá tão diferentes das que nós vivemos hoje em dia.

Há de se convir que muita coisa aconteceu no mundo desde as primeiras décadas do século XX, não há como negá-lo; entretanto, por outro lado, havemos de convir que há muito de kafkiano em nossa realidade, basta sabermos enxergar seus contornos e detalhes sombrios para entender porque o autor é tido, ao lado de Joyce e Proust, como um dos mais importantes escritores do século XX.

Um Artista da Fome, coletânea que reúne os contos Primeira dor; Uma mulher pequena; Josefina, a cantora (ou O povo dos camundongos) além daquele que lhe dá título é um ótimo exemplo desse mal-estar e intranqüilidade mórbida que o autor nos causa. São pérolas (essa talvez não seja a comparação mais adequada para a obra kafkiana, mas relevem-na) que exprimem o sentimento do autor perante o seu tempo, as contradições experimentadas todos os dias em sua conturbada vida.

Um artista da fome narra o declínio dos jejuadores, como sua arte deixou de ser admirada e celebrada conforme o tempo foi passando. Os jejuadores, que chegavam a passar 40 dias sem comer, eram admirados pelas pessoas que se colocavam ao seu redor para procurar entender o que os movia. Kafka, porém, vai além, e investiga os motivos existenciais que levava esses artistas da fome a quase morrerem de inanição. A renúncia deles não era somente física, mas espiritual: não achando algo que os apetecesse nesse mundo, decidiam privar-se de alimento, vivendo em um quase-transe por longos períodos.

Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos apresenta aspectos ligeiramente diferentes de grande parte da obra de Kafka, parece haver pequenas réstias de luz se infiltrando sorrateiramente pela narrativa lúgubre, mesmo que por curto espaço de tempo. Ao se referir às tentativas de assobio e canto de Josefina com certa simpatia e usando como foco narrativo a primeira pessoa do plural, o autor causa um certo impacto, pois conceber-se como parte de algo, com uma visão não tão permeada de aporias como é comum de suas obras, coloca novas (e interessantes) percepções em vista.

Mas penso que A Construção seja, nessa edição, o texto mais emblemático. Modesto Carone chama esse conto de “testamento literário” de Kafka. A Construção é realmente contundente, dá para imaginar Kafka escrevendo aquilo e sentindo-se tão sufocado quanto o narrador (que parece uma toupeira ou algo semelhante, visto que não temos confirmação de tal).

Conhecemos uma criatura que vive sob a terra em túneis e esconderijos escavados. Porém, mais do que habitar, a confusão de túneis deve proteger seu morador, o qual não consegue relaxar um minuto sequer, visto que se preocupa todo o tempo com invasores, desmoronamentos, ataques súbitos etc. Isso faz com que a criatura esteja sempre escavando, planejando, desenvolvendo estratégias, alargando ou estreitando túneis, criando artimanhas para sua paranoia.

A intranquilidade e a tensão constante marcam o ritmo, deixando a narrativa perturbadora, sempre vigilante. Assim Kafka construía suas histórias, e quem sabe a construção (constantemente ameaçada) seja uma grande metáfora para sua obra, quiçá sua própria vida. A narrativa rascante, lacônica e fria do autor não quer definir prontamente, quer justamente deixar o leitor como a criatura da construção: em constante desconforto claustrofóbico, tentando dar inteligibilidade ao texto a seu modo, deslindando possibilidades ocultas.
Fonte: Meia Palavra

Podia jejuar da melhor forma que lhe fosse possível — e ele o fazia –, mas nada mais poderia salvá-lo, as pessoas passavam por ele sem lhe dar atenção. Tente explicar para alguém a arte de jejuar! Não é possível fazê-la entender a alguém que não a sente. Os belos cartazes foram ficando sujos e ilegíveis, foram arrancados, e ninguém pensou em substituí-los; a tabuleta com o número dos dias jejuados, que nos primeiros tempos tinha sido renovada cuidadosamente a cada dia, continuava a ser a mesma fazia muito tempo, porque depois das primeiras semanas o pessoal ficou achando demais até mesmo esse pequeno trabalho; e desse modo, embora o artista da fome continuasse a jejuar, tal como outrora sonhara, e conseguisse fazê-lo sem grande esforço, tal como ele o tinha predito então, ninguém mais contava os dias, ninguém, nem mesmo o próprio artista da fome, sabia quão grande já era o seu desempenho, e o seu coração ficou pesaroso. E se alguma vez, nesse tempo, um passante que não tinha nada melhor o que fazer se detivesse, zombasse da velha cifra e falasse de fraude, isso era, à sua maneira, a mais tola das mentiras que a indiferença e a maldade inata pudessem inventar, porque não era o artista da fome quem fraudava — ele trabalhava honestamente –, mas era o mundo quem o defraudava de sua recompensa.

Mas passaram novamente muitos dias, e também isso chegou a um fim. Certa vez, a jaula chamou a atenção de um inspetor, e ele perguntou aos serventes por que essa jaula, que ainda tinha boa serventia, estava aqui abandonada, cheia de palha apodrecida; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, conseguiu lembrar do artista da fome. Remexeram a palha com varas e encontraram o artista da fome no meio dela.
 http://www.4shared.com/document/6ik_LhEU/Franz_Kafka_-__Um_Artista_da_F.html

Marcello M.

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