O escafandro e a borboleta (Jean-Dominique Bauby)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011 |


O célebre jornalista e redator francês Jean-Dominique Bauby sofreu, no dia 8 de dezembro de 1995, um Acidente Vascular Cerebral, e entrou em coma; assim que saiu desta condição, ele se viu acometido pela incomum ‘Locked-in Syndrome’, que não deixa o paciente se mobilizar, fazer suas refeições, se comunicar verbalmente e até mesmo respirar, sem o auxílio de aparelhos.
Sua lucidez intelectual, porém, continuou a cintilar em seu cérebro, o que o levou a tomar uma súbita decisão, criar uma obra na qual pudesse relatar suas experiências e expressar seus sentimentos. Como o olho esquerdo era o único órgão de seu organismo a se manter ativo, Jean produziu um sistema de comunicação original.

O jornalista mobilizou um alfabeto condizente com suas condições, auxiliado por sua fonoaudióloga, o ESA, que lhe permitia ditar as letras bem devagar, em ordem decrescente de repetição no idioma francês; ele piscava o olho esquerdo assim que a letra desejada era recitada.

Desta forma o paciente, imobilizado em seu escafandro – equipamento hermeticamente fechado, e que os mergulhadores vestem para trabalharem sob a água -, uma alusão metafórica aos aparelhos nos quais ele vivia recluso, interage com a esfera social. No leito ele vivia submisso a tudo e a todos, mas através de seu livro, “O Escafandro e a Borboleta“, o escritor se libertava, como a borboleta se libera do seu casulo.

Ao longo de 15 meses ele permaneceu nestas condições, com o corpo aprisionado e a consciência totalmente livre, o que, com certeza, gerava em seu íntimo uma terrível angústia. A obra mescla o retrato da condição na qual ele vivia e memórias de sua vida antes do acidente vascular.

Ao mesmo tempo em que o leitor vivencia sua aflição e a profunda tristeza de não poder, por exemplo, tocar seus filhos, ele também experimenta a intensa habilidade e a veloz atividade de sua mente, a qual, ainda que em um organismo imóvel, é capaz de agir e, através de suas atitudes, transmitir preciosas lições de vida.

Quantas pessoas, sem perceberem o quanto são livres e capazes, se tornam cativas de medos e inseguranças? Elas com certeza encontrarão muitas respostas neste livro, que foi publicado em 1997. Concluída sua missão, Bauby faleceu apenas dez dias após o lançamento de sua obra-prima, vítima de uma pneumonia, aos 45 anos. Ele foi sepultado na lápide familiar, no Cemitério Pére-Lachaise, em Paris.

Ironicamente, o jornal O Estado de São Paulo veiculou, no mesmo dia de sua morte, sem consciência deste fato, um texto reproduzido do inglês The Guardian, o qual discorria sobre o livro de Jean; um dia depois a Folha de São Paulo divulgou seu falecimento. O jornalista, ex-editor da revista Elle, deixou dois filhos – Théophile e Céleste. Hortense, a suposta terceira filha citada no livro, é apenas um personagem de ficção.

Em 2007 este livro impactante foi convertido para as telas dos cinemas, com o mesmo título, sob a direção do cineasta Julian Schnabel, e protagonizado pelo intérprete francês Mathieu Amalric; a versão cinematográfica foi amplamente premiada, conquistando a estatueta de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2007, um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor.
Fonte: Infoescola

Por trás da cortina de tecido rendado a claridade leitosa anuncia que a manhãzinha vem chegando. Meus calcanhares doem, minha cabeça é uma bigorna, e meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. Devagarinho, meu quarto vai saindo da penumbra. Olho detidamente as fotos dos entes queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, o pequeno ciclista em folha-de-flandres, enviado por um amigo às vésperas da Paris-Roubaix, e a trave que coroa o leito onde me encontro incrustado há seis meses, como um
Bernardo-eremita em seu rochedo.Não preciso pensar muito tempo para saber onde estou e lembrar que minha vida deu uma guinada no dia 8 de dezembro do ano passado, uma sexta-feira. Até então, nunca tinha ouvido falar em tronco encefálico. Naquele dia descobri de chapa essa peça mestra do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o encéfalo e as terminações nervosas, quando um acidente vascular cerebral pôs o tal tronco fora do circuito. Antes, davam a isso o nome de “congestão cerebral”, e a gente morria, pura e simplesmente. O progresso das técnicas de reanimação sofisticou a punição. Escapamos, mas “brindados” por aquilo que a medicina anglo-saxônica batizou com justiça de locked-in syndrome: paralisado dos pés à cabeça, o paciente fica trancado no interior de si mesmo com o espírito intato, tendo os batimentos de sua pálpebra esquerda como único meio de comunicação.Evidentemente, o principal interessado é o último que fica a par desse indulto. Quanto a mim, tive direito a vinte dias de coma e a algumas semanas de brumas antes de perceber realmente a extensão dos estragos. Foi só no fim de janeiro que emergi de fato neste quarto 119 do Hospital de Berck, à beira-mar, onde penetramagora os primeiros clarões da aurora. Vai ser uma manhã comum. Às sete horas, o carrilhão da capela recomeça a marcar a fuga do tempo, de quinze em quinze minutos.Depois da trégua da noite, meus brônquios obstruídos recomeçam a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, minhas mãos me fazem sofrer, sem que eu consiga determinar se estão queimando ou enregeladas. Para combater a ancilose, ponho em ação um movimento reflexo de estiramento que move braços e pernas em alguns milímetros. Isso às vezes basta para aliviar um membro dolorido.O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa para fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas.Pode-se visitar a mulher amada, resvalar para junto dela e acariciar-lhe o rosto ainda adormecido. Construir castelos de vento, conquistar o Velocino de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos da infância e as fantasias da idade adulta.Chega de dispersão. Preciso compor o início destes cadernos de viagem imóvel e estar pronto para quando o enviado de meu editor vier tomar o ditado, letra por letra. Na minha mente, remôo dez vezes cada frase, elimino uma palavra, junto um adjetivo e decoro meu texto, parágrafo após parágrafo. Sete e meia. A enfermeira de plantão interrompe o curso de meus pensamentos. Segundo um ritual bem preciso, ela abre a cortina, verifica traqueotomia e gotejamento, e liga o televisor para que eu veja o noticiário. Por enquanto, um desenho animado conta a história do sapo mais veloz do Oeste. E se eu formulasse o desejo de ser transformado em sapo?

http://www.4shared.com/document/E6oef3sM/Jean-Dominique_Bauby_-_O_escaf.html

Marcello M.

1 comentários:

Felicidade Clandestina disse...

Gostei muito da seleção de livros presente aqui.

Ainda não li este - assisti apenas o filme. Muito tocante.

Obrigada!