Não contem com o fim do livro (Umberto Eco e Jean-Claude Carrière)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011 |


Em “Não contem com o fim do livro” (Ed. Record, 2010) o teórico e escritor Umberto Eco e o cineasta Jean Claude-Carrière discutem a situação do livro no mundo contemporâneo e seu futuro com os surgimento de novas mídias, principalmente a veiculação digital.

Embora a premissa seja o futuro do livro os dois autores partem para uma história do livro, da veiculação da cultura antes do livro e depois do livro, a influencia do livro na cultura e tecem um sem números de argumentos que explicam o porquê de acreditarem que o livro não desaparecerá.

O texto é discursivo, um diálogo, mediado por um jornalista e é bastante acessível e agradável e até mesmo divertido não sendo utilizado vocabulário técnico nem informações que são jogadas ao leitor exigindo um pré-conhecimento. Todas as informações dadas são devidamente explicadas.

Umberto Eco é autor de vários livros teóricos, sobre cultura semiologia e romances. Livros tais como “A História da Beleza”, “O Nome da Rosa” e ”Quase a mesma coisa”. Jean Claude-Carrière é cineasta, roteirista e ator francês.
Fonte: http://queromoraremumalivraria.blogspot.com/2010/03/nao-contem-com-o-fim-dos-livros-umberto.html

Estamos a comparar nossas técnicas modernas, mais ou menos adaptadas às nossas vidas de pessoas apressadas, ao que foram o livro e seus modos de fabricação e circulação. Dou-lhes um exemplo da maneira como o livro também pode seguir de perto o movimento da História, curvar-se a seu ritmo. Para escrever As noites de Paris, Restif de la Bretonne caminha pela capital e simplesmente descreve o que vê. Terá ele sido realmente testemunha disso? Os comentadores não dão certeza. Restif era conhecido por ser um homem que divagava, que gostava de imaginar como real o mundo criado por ele. Por exemplo, sempre que conta uma trepada com uma puta, descobre que ela é uma de suas filhas.
Os dois últimos volumes das Noites de Paris foram escritos durante a Revolução. Restif não apenas redige o relato de sua noite, como o compõe e imprime de manhã, numa gráfica, num subsolo. E como não consegue arranjar papel durante essa época tumultuada, recolhe pelas ruas, durante seus passeios, cartazes e panfletos que manda ferver, obtendo assim uma pasta de péssima qualidade. O papel desses dois últimos volumes não é em absoluto o dos primeiros. Outra característica de seu trabalho, ele imprime abreviadamente, pois não dispõe de tempo. Ele põe "Rev.", por exemplo, para "Revolução". É espantoso. O próprio livro manifesta a pressa de um homem que quer a todo custo cobrir o acontecimento, ir tão rápido quanto a História. E se os fatos narrados não são verdadeiros, então Restif é um mentiroso de primeira. Por exemplo, ele viu um personagem a quem apelida de o "bolinador". Esse homem passeava discretamente em meio à multidão em torno do cadafalso e, sempre que uma cabeça caía, passava a mão nas nádegas de uma mulher. Foi Restif quem falou dos travestis, então designados como "afeminados", durante a Revolução. Lembro-me também de uma cena com a qual sonhamos muito, eu e Milos Forman. Um condenado é levado ao cadafalso numa carroça, junto com outros. Está com seu cãozinho, que o seguiu. Antes de subir para o suplício, volta-se para a multidão para saber se alguém quer adotá-lo. O animal é muito afetuoso, esclarece. E a multidão responde-lhe com palavrões. Os guardas impacientam-se e arrancam o cachorro das mãos do condenado, que é imediatamente guilhotinado. O cão, ganindo, vai lamber o sangue do seu dono, na cesta. Irritados, os guardas terminam por matar o cão a golpes de baioneta. Então a multidão investe contra os guardas. "Assassinos! Não têm vergonha? Que mal lhes fez esse cãozinho?" Me perdi um pouco, mas o desafio de Restif — um livro-reportagem, um livro "ao vivo" — me parece único. Voltemos à pergunta: Que livros tentaríamos salvar em caso de tragédia? O fogo declara-se em sua casa, você sabe as obras que tentaria proteger em primeiro lugar?

http://www.4shared.com/document/rWwkThNW/Umberto_Eco_-_No_Contem_com_o_.html

Marcello M.

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