O castelo (Franz Kafka)

quinta-feira, 30 de junho de 2011 |


O agrimensor K. chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo num albergue perto da ponte. O ambiente sombrio e a recepção ambígua dão o tom do que será o romance. No dia seguinte o herói vê, no pico da colina gelada, o castelo: como um aviso sinistro, bandos de gralhas circulam em torno da torre. O personagem, K., nunca conseguirá chegar até o alto, nem os donos do poder permitirão que o faça. Em vez disso, o suposto agrimensor — mesmo a esse respeito não há certeza — busca reivindicar seus direitos a um verdadeiro cortejo de burocratas maliciosos, que o atiram de um lado para outro com argumentos que desenham o labirinto intransponível em que se entrincheira a dominação.
O castelo — Fausto do século XX consolidado como um dos pontos mais altos da ficção universal — mostra a extensão completa do termo kafkiano

O cocheiro, submisso ao senhor, mas com um malévolo olhar de viés para K., teve então de descer envolvido na pele e, com muita hesitação, como se esperasse não uma contra-ordem do senhor, mas uma reconsideração de K., começou a afastar os cavalos com o trenó para perto da ala lateral, na qual estava evidentemente instalado, atrás de um grande portão, o estábulo com a cocheira. K. viu-se deixado sozinho, de um lado distanciava-se o trenó, do outro — no caminho que K. havia percorrido — o jovem senhor, ambos no entanto muito vagarosos, como se quisessem mostrar a K. que ainda estava no seu poder alcançá-los.
Talvez ele dispusesse desse poder, mas não teria podido usá-lo, pois pegar de volta o trenó significava expulsar a si mesmo. Assim sendo permaneceu parado, como o único que dominava o lugar, mas não era uma vitória que causasse alegria. Ele acompanhava com o olhar ora o senhor, ora o cocheiro. O senhor já tinha alcançado a porta, através da qual K. havia entrado antes no pátio, e olhado uma vez para trás: K. acreditou vê-lo balançar a cabeça em relação a tanta relutância, depois voltou-se com um movimento decidido, breve e definitivo e penetrou no  corredor no qual logo desapareceu. O cocheiro ficou mais tempo no pátio, tinha muito trabalho com o trenó, precisava abrir o pesado portão do estábulo, levar o trenó recuando até o seu lugar, desatrelar os cavalos, conduzi-los à manjedoura; fez tudo isso seriamente, voltado para si mesmo, já sem nenhuma esperança de uma viagem próxima; esse trabalho silencioso, sem qualquer olhar de soslaio a K., pareceu a este uma censura muito mais severa do que o comportamento do jovem senhor. Depois de terminar a tarefa do estábulo, o cocheiro atravessou o pátio, com o seu andar lento e balançado, fechou o grande portão e depois retornou, tudo devagar e literalmente contemplando suas próprias pegadas na neve; em seguida se fechou no estábulo e apagou todas as luzes — para quem elas deveriam ficar acesas?
Na parte de cima ficou iluminada apenas a fenda na galeria de madeira, capturando um pouco o olhar errante, uma vez que parecia a K. que agora todas as ligações com ele tivessem sido rompidas e estivesse sem dúvida mais livre que nunca e pudesse ali esperar no local antes proibido para ele quanto tempo quisesse e tivesse lutado por essa liberdade como quase nenhum outro e ninguém tivesse permissão para tocá-lo ou mandá-lo embora, nem mesmo interpelá-lo. No entanto essa  convicção era no mínimo igualmente forte, como se, ao mesmo tempo, não existisse nada mais sem sentido, nada mais desesperado do que essa liberdade, essa espera, essa invulnerabilidade.
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Marcello M.

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