Fim de Partida (Samuel Beckett)

domingo, 5 de junho de 2011 |


Encenada pela primeira vez em 1957, Fim de Partida é talvez a realização mais acabada de Beckett. Aqui o resenhista encontra a deixa para falar um pouco do autor e sua obra. Reservado, o Nobel de Literatura de 1969 disse a uma biógrafa que sua vida era "enfadonha e sem interesse". Não é verdade. Beckett, como seu amigo, mentor e compatriota James Joyce, cedo escolheu o exílio. Disse preferir Paris em guerra à Irlanda em paz. Falava sério: participou da resistência durante a ocupação nazista na França, o que lhe valeu uma condecoração do general De Gaulle, em 1945. No pós-guerra, depois dos romances Molloy, Malone Morre e O Inominável, surgiram as peças que transformariam Beckett na figura central do palco moderno: Esperando Godot, Fim de Partida, Dias Felizes, A Última Fita de Krapp, títulos que se alinham a Ulisses, de James Joyce, e a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, como tours de force do modernismo. Comparado aos caudalosos Joyce e Proust, porém, Beckett é econômico. Para o fim da vida, foi compondo peças cada vez menores. Sua dificuldade reside em parte na aparente pobreza de recursos cênicos e verbais. Os personagens falam com clichês e fragmentos de frase, contam pedaços de histórias que não se resolvem nem apontam um sentido, repetem gestos automatizados. Os próprios personagens são fragmentos – em Fim de Partida, todos apresentam algum impedimento físico. Eu Não, obra posterior, coloca em cena apenas uma boca sem corpo. Fim de Partida É um excruciante diálogo entre Hamm, misto de ditador fracassado e artista frustrado, e Clov, seu serviçal. Hamm está cego e paralítico. Clov tem uma estranha enfermidade que o impede de sentar – as pantomimas e macaquices de vaudeville ficam a seu cargo. Ocasionalmente aparecem outros dois mutilados, Nagg e Nell, pais de Hamm, que vivem dentro de latas de lixo. Os quatro personagens dividem um abrigo, refugiados de uma terra devastada que Clov espia com uma luneta. O texto não esclarece que espécie de apocalipse criou tamanha desolação.

A maioria das peças foi escrita em francês, mas o próprio Beckett providenciou traduções em inglês. Era um artista sem pátria – daí o crítico francês George Steiner chamá-lo de "extraterritorial". O leitor já adivinha que esta é a parte da resenha em que são citadas as autoridades críticas. Vamos ficar com uma só: o filósofo alemão Theodor Adorno, para quem Beckett, com seu aparente desinteresse por política, construiu uma crítica social e filosófica mais arrasadora que as peças ideológicas de Sartre. Não há ideologia em Beckett, e é inútil procurar chaves simbólicas nos diálogos estropiados entre Clov e Hamm. Fim de Partida provaria, no limite, a impossibilidade de toda forma de linguagem e comunicação. "Moscas debatendo-se depois que o mata-moscas as esmagou só pela metade", para usar uma citação de Adorno, os aleijões de Beckett representariam uma sentença definitiva contra a sociedade moderna. Pensando bem, o autor é um problema para todos nós. 
Fonte


Interior sem mobília.

Luz cinzenta.

À direita e à esquerda, duas janelas pequenas e altas, cortinas fechadas.

Na frente à direita, uma porta. Ao lado da porta, pendurado, um quadro, voltado para a parede.

Na frente à esquerda, cobertos por um lençol velho, dois latões encostados um ao outro.

No centro, coberto por um lençol velho, sentado em uma cadeira de rodas, Hamm.

Imóvel ao lado da cadeira, olhar fixo em Hamm, Clov. Rosto muito vermelho.

Clov vai até embaixo da janela esquerda. Andar emperrado e vacilante. Com a cabeça inclinada para trás, olha para a janela esquerda. Vira a cabeça, olha para a janela direita. Vai até embaixo da janela direita. Com a cabeça inclinada para trás, olha para a janela direita. Vira a cabeça e olha para a janela esquerda. Sai, volta em seguida com uma escadinha, instala-a sob a janela esquerda, sobe, abre a cortina. Desce da escada, dá seis passos rumo à janela direita, volta para pegar a escada, instala-a sob a janela direita, sobe, abre a cortina. Desce da escada, dá três passos em direção à janela esquerda, volta para pegar a escada, instala-a sob a janela esquerda, sobe, olha pela janela. Riso breve. Desce da escada, dá um passo em direção à janela direita, volta para pegar a escada, instala-a sob a janela direita, sobe, olha pela janela. Riso breve. Desce da escada, anda em direção aos latões, volta para pegar a escada, pega-a, muda de idéia, deixa-a, anda até os latões, volta para pegar a escada, pega-a, muda de idéia, deixa-a, anda até os latões, tira o lençol que os cobre, dobra-o com cuidado e coloca-o sob o braço. Levanta a tampa de um dos latões, inclina-se sobre ele, olha dentro. Riso breve. Tampa novamente o latão. O mesmo para o outro latão. Vai até Hamm, tira o lençol que o cobre, dobra-o com cuidado e coloca-o sob o braço. Vestindo um roupão e usando um pequeno gorro colado à cabeça, Hamm tem um lenço grande manchado de sangue aberto sobre o rosto e um apito pendurado no pescoço, um cobertor sobre os joelhos e meias grossas nos pés. Clov observa-o. Riso breve. Vai até a porta, pára, volta-se, contempla o palco, volta-se para o público.

CLOV
(olhar fixo, voz neutra) Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando. (Pausa) Os grãos se acumulam, um a um, e um dia, de repente, lá está um monte, um amontoado, o monte impossível. (Pausa) Não podem mais me punir. (Pausa) Vou para a minha cozinha, três metros por três metros por três metros, esperar até que ele apite. (Pausa) É um bom tamanho. Vou me encostar na mesa e olhar a parede, esperando que ele apite.

Fica imóvel por um momento, depois sai. Volta em seguida, pega a escada, sai com a escada. Pausa. Hamm se mexe. Boceja sob o lenço. Tira o lenço do rosto. Pele muito vermelha. Óculos escuros.

HAMM
Minha... (bocejos)...vez. (Pausa) De jogar. (Segura o lenço aberto à sua frente na ponta dos dedos) Trapo velho! (Tira os óculos, enxuga os olhos, o rosto, limpa os óculos, recoloca-os, dobra o lenço com cuidado e coloca-o com delicadeza no bolso do peito do roupão. Limpa a garganta, junta a ponta dos dedos) Pode haver... (boceja)...miséria mais... mais sublime do que a minha? Sem dúvida. Naquele tempo. Mas e hoje? (Pausa) Meu pai? (Pausa) Minha mãe? (Pausa) Meu... cão? (Pausa) Ah, é claro que admito que sofram tanto quanto criaturas assim podem sofrer. Mas isso quer dizer que nosso sofrimento seja comparável? Sem dúvida. (Pausa) Não, tudo é a... (boceja)...bsoluto,_ (com orgulho) quanto maior o homem, mais pleno. (Pausa. Melancólico) E mais vazio. (Funga) Clov! (Pausa) Não, estou sozinho. (Pausa) Que sonhos! Aquelas florestas! (Pausa) Chega, está na hora disso acabar, no abrigo também. (Pausa) E mesmo assim eu ainda hesito em... ter um fim. É, é isso mesmo, está na hora disso acabar e mesmo assim eu ainda hesito em ter um... (boceja)...fim. (Boceja) Meu Deus, que há comigo hoje, devia ir me deitar. (Apita. Entra Clov imediatamente. Pára ao lado da cadeira) Você polui o ar! (Pausa) Apronte-me, vou me deitar.

CLOV
Acabei de levantá-lo.

HAMM
E daí?

CLOV
Não posso ficar levantando e deitando você a cada cinco minutos, tenho o que fazer.

(Pausa)

HAMM
Por acaso você já viu meus olhos?

CLOV
Não.

HAMM
Nunca teve a curiosidade, enquanto eu dormia, de tirar meus óculos e espiar meus olhos?

CLOV
Levantando as pálpebras? (Pausa) Não.

HAMM
Qualquer dia vou mostrá-los a você. (Pausa) Parece que ficaram completamente brancos. (Pausa) Que horas são?

CLOV
A mesma de sempre.

HAMM
(gesto em direção à janela direita) Você já olhou?

CLOV
Olhei

HAMM
E então?

CLOV
Zero.

HAMM
Teria que chover.

CLOV
Não vai chover.

(Pausa).

HAMM
Fora isso, tudo bem?

CLOV
Não me queixo.

http://www.4shared.com/document/kgGG3iJe/Samuel_Beckett_-_Fim_de_Partid.html

Marcello M.

1 comentários:

O Impenetrável disse...

Esse blog é realmente sensacional, super interessante. Fiquei louco e baixei o quanto pude, somente obras que eu adoraria ler. Já estou a seguir o blog.

Grande abraço.