Olhos azuis, cabelos pretos (Marguerite Duras)

segunda-feira, 9 de maio de 2011 |


Olhos Azuis Cabelo Preto é um texto nos limites do confessável. O mais irredutivelmente durasiano que Duras publicou. Por isso mesmo o mais notável: simultaneamente misterioso e de uma terrível clareza.
Ao ler-se, pode sempre pensar-se que é um texto demasiado pessoal para dever ser escrito e que coloca o leitor na posição desconfortável de estar a ler um diário secreto que não lhe diz respeito. No fundo, é precisamente o contrário que acontece; não há aqui nada que seja comum passar-se entre duas pessoas, nenhuns sentimentos e nenhumas declarações vulgares de paixão.
Inevitavelmente, um texto sobre Olhos Azuis Cabelo Preto acaba por resultar periférico. Acontece quando se trata de um livro que se ocupa das duas únicas questões de que vale a pena qualquer livro ocupar-se: o amor e a morte, na sua mais desconfortável estranheza. Quase nunca se consegue dizer que o resto não tem importância sem se ser ao mesmo tempo ridiculamente pretensioso.
Duras consegue, sem pompa nem circunstância, fazer-nos perceber que chegar ao último dia não tem nada de tragicamente muito importante. Como ela diz, daqui por mil anos terão passado, dia por dia, mil anos que esse dia existiu. Daqui a séculos, o último dia será um dia datado, apenas isso. Tornar essa única verdade inteligível de uma forma não dolorosa é a primeira versão da existência deste livro, é a diferença central que o torna um livro desesperadamente feliz. É por isso que deve ser lido.
FONTE

Pouco antes de ele atravessar a estrada, questãode segundos, ela, a mulher da história, chega ao vestíbulo. Entrou pela porta que dá para o parque. Quando o homem chega à janela, ela já está ali, a alguns metros dele entre as outras mulheres. De onde se encontra, o homem, mesmo se quisesse, não poderia ver-lhe o rosto. Na verdade, ela está voltada para a porta do vestíbulo que dá para a praia.
É jovem. Usa tênis brancos. Vê-se seu corpo esbelto e flexível, a brancura da pele nesse verão de sol, os cabelos pretos. Só contra a luz seria possível ver-lhe o rosto, de uma janela que desse para o mar. Está de short branco. Na cintura, uma echarpe de seda preta, amarrada negligentemente. Nos cabelos, uma fita azul-escura que deveria pressagiar um azul de olhos que não se pode ver. 
Súbito chamam do hotel. Não se sabe quem. Gritam um nome de sonoridade insólita, perturbadora, feita de uma vogal chorosa e prolongada, de um a do Oriente e de seu tremular entre paredes vítreas de consoantes irreconhecíveis, um t por exemplo, ou um /.
A voz que grita é tão clara e alta que as pessoas param de falar e esperam uma espécie de explicação que não virá. Pouco depois do grito, pela porta que a mulher está olhando, a das escadas do hotel, um jovem estrangeiro entra no vestíbulo. Um jovem estrangeiro de olhos azuis cabelos pretos.
  http://www.4shared.com/document/nUPX-y2g/Marguerite_Duras_-_Olhos_azuis.html

Marcello M.

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