Demian (Herman Hesse)

sábado, 7 de maio de 2011 |


O livro conta a história de um jovem - Emil Sinclair, protagonista e narrador - criado por pais muito piedosos que, de repente, se vê em um mundo bem diferente daquele pregado por seus pais e avós. Atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência, passa a procurar na introspecção suas respostas. Dividido entre o mundo ideal e o real, com suas interpretações (mundo claro e paternal, associado às idéias de seus pais e à residência destes, e o mundo sombrio e frio, externo à residência dos pais e com valores estranhos a estes), Sinclair experimenta ambos, através do confronto com suas próprias concepções, para tentar encontrar sua verdadeira personalidade. Percorrendo este caminho perigoso, influenciado por Max Demian, um colega de classe precoce e envolvente, ele prova do crime, da amizade e das incertezas - surpresas que engendram as descobertas de sua vida adolescente. Sinclair, então, se rebela contra as convenções sociais e descobre não apenas o doce sabor da independência mas também seu poder de praticar o bem ou o mal. A relação de Sinclair e Demian atravessa toda a narrativa a partir do momento que os personagens se conhecem. Demian revela a Sinclair que existem filhos de Caim, pessoas que possuem a capacidade de exercer o bem e o mal; também apresenta a entidade Abraxas, divindade de características humanas - também capaz de exercer o bem e o mal. A obra tem muitas referencias bíblicas, como o Sinal de Caim e o Gólgota, tornando dificil a leitura a quem não sabe muito sobre a religião cristã, mas também trata de misticismo e autoconhecimento, da busca da essência do Eu. A obra narra principalmente os conflitos internos que um indivíduo passa desde a infância, através da adolescência, até sua idade adulta. É possível afirmar que Demian trata-se de um romance iniciático, descrevendo os contatos de um indivíduo com aspectos existenciais e de sua personalidade.

Pedi à empregada que nada dissesse e subi por fim. De um cabide que estava junto à porta de cristais pendiam o chapéu de meu pai e a sombrinha de minha mãe. Aqueles objetos exalavam para mim o doce aroma do lar. Meu coração saudou-os humilde e agradecido, como o filho pródigo saúda o aspecto e o perfume dos velhos aposentos da casa paterna. Mas tudo aquilo deixara de pertencer-me, fazia parte do claro mundo familiar e eu havia naufragado de maneira culpável  nas águas do mundo sombrio. Acorrentado a pecaminosas aventuras, ameaçava-me o inimigo e os riscos me aguardavam, a vergonha e o terror. O chapéu e a sombrinha, o chão de ladrilhos, o quadro grande do vestíbulo e a voz de minha irmã mais velha ressoando lá dentro na sala de estar — todas aquelas coisas mearam mais caras, mais gratas, mais preciosas do que nunca; já não me traziam consolo, já não constituíam um bem seguro, mas eram apenas símbolos de severa censura. Tudo aquilo deixara de ser meu; já não me era possível participar de sua paz serena. Meus pés estavam manchados de uma lama que não se podia limpar nocapacho da porta; trazia comigo trevas inteiramente desconhecidas do claro mundo de meu lar. Todos os meus segredos e minhas angústias de ontem não passavam agora de mero brinquedo, comparados com a carga que agora trazia para casa. Um negro destino perseguia-me; mãos hostis avançavam para agarrar-me; minha mãe não poderia proteger-me, não poderia saber de nada! Tanto fazia que eu fosse culpado de um delito de furto ou de um pecado de mentira! Por acaso não jurara em falso por Deus e pela salvação de minha alma? Não se tratava de um pecadinho à-toa; meu pecado era ter dado a mão ao Diabo. Por que fora com aquele indivíduo? Por que havia obedecido a Kromer com mais diligência e submissão — com muito mais — do que quando obedecia a uma ordem de meu próprio pai? Por que inventara a história do roubo? Por que me vangloriara de um furto como se tratasse de um ato heróico? Agora  o demônio me havia agarrado pela mão e o inimigo me perseguia.

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Marcello M.

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