Orlando (Virginia Woolf)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010 |


Virgínia Woolf, sem dúvida uma das mais importantes escritoras inglesas, nasceu em Londres em 1882, terceira filha de Sir Leslie Stephen, historiador e biógrafo, e de Julia Duckworth, depois de Vanessa (1879) e Thoby (1880).
Com a morte da mãe, em 1895, Virgínia apresenta primeiros sinais de depressão que a acompanharia longo de sua vida.
Em 1904, com a morte de Sir Leslie Stephen, os irmãos se transferem de Hyde Park Gate para Bloomsbury, onde se criou o famoso Bloomsbury Group, constituído de intelectuais, escritores e artistas, que se reunia às quintas-feiras na casa dos Stephen para discutir questões relacionadas com a arte e a cultura da época. O grupo era, a princípio, coordenado por Lytton Stract e dele faziam parte J. Maynard Keynes, E. M. Fors Leonard Woolf (que casaria com Virgínia em 1912) Roger Fry, Duncan Grant, Clive Bell (depois marido de Vanessa), Sydney-Turner, entre outros.
Em 1917, junto com o marido, Leonard Woolf, Virgínia funda a Hogarth Press, que publicará grandes nomes da literatura, como T. S. Eliot, Katherine Mansfield, M. Forster e, é claro, seus próprios livros.
Além de romances, Virgínia escreveu inúmeros contos e resenhas para jornais como The This Literary Supplement, The New Statesman, Athenae para citar alguns.
Em 28 de março de 1941, ao perceber que seria minada por outra crise de depressão, Virgínia escreve para Leonard e para Vanessa e se suicida, coloca várias pedras pesadas no bolso da roupa e se lança no rio Ouse, próximo à sua casa em Rodmell, Susse
Orlando, publicado em 1928, é na realidade o sexto romance de Virgínia, precedido por A Viagem (1917 - The Voyage Out), Noite e Dia (1919 - Night and Day), O quarto de Jacob (1922 - Jacob's Room), Sra. Dalloway (1925 -Mrs. Dalloway) e Ao Farol (1927 - To the Lighthouse), seguido de As Ondas (1931 - The Waves), os Anos (1937 - The Years) e Entre os Atos (1941 - Between the Acts).
Diferentemente dos demais romances, foi publicado com o subtítulo "uma biografia" e dedicatória a V. Sackville-West.
Virgínia conheceu a escritora Victoria Sackville-West - Vita - em 1919, e logo se tornaram grandes amigas.
Vita - casada com Sir Harold Nicolson, eminente biógrafo, autor de O Desenvolvimento da Biografia Inglesa (1928) - já era conhecida na sociedade londrina por suas amizades femininas. Seu envolvimento amoroso com Virgínia ocorreu seis anos depois que se conhecem e durou cerca de dois anos, quando Vita se apaixonou por outra pessoa. Mesmo assim, permaneceram amigas até a morte de Virgínia.
Ao planejar a elaboração do livro, Virgínia comenta em seu Diário: 'Será uma biografia começando em 1500 e continuando até o presente, chamada Orlando; apenas com uma mudança de um sexo para o outro.' Na verdade, o livro é mais que uma simples biografia, gênero que Virgínia muito apreciava e que, de certa forma, aparece em seus romances, como por exemplo O Quarto de Jacob, que para muitos retrata Thoby, seu irmão desaparecido prematuramente, ou Ao Farol, onde os protagonistas, Sr. e Sra. Ramsay, representam os pais da escritora.
Por outro lado, para enfatizar a idéia de "biografia", Virgínia baseou seu texto em fatos e pessoas reais: Orlando é Vita; para descrever o castelo, a autora usou Knole, castelo pertencente aos Sackville; é deles também o brasão de armas que aparece no vitral do castelo de Orlando.
Outro comentário freqüente com relação ao livro refere-se à androginia. De fato, os principais personagens de Orlando apresentam características andróginas: Arquiduquesa / Arquiduque, Shelmerdine, e, é claro, o próprio Orlando / jovem viril, que dá lugar a Lady Orlam, mãe, completando o ciclo da vida. Contudo, o livro é bem mais que uma biografia ou ainda uma defesa da mente andrógina, conforme as idéias de Coleridge, posteriormente apresentadas por Virgínia em Um Teto Todo Seu (1929). Orlando reflete o interesse da autora pela relação do indivíduo com o fluxo da história, e nesse sentido é magistral.
O fato é que o livro se tornou um sucesso da Hoga em dezembro de 1928, ano da publicação, foi necessário fazer uma terceira edição, embora Virgínia tive ficado apreensiva quanto ao resultado, conforme menciona em seu Diário: Sim, está terminado - Orlando iniciado em 8 de outubro, como uma brincadeira, e agora longo demais para meu gosto. Pode malograr por ser longo demais para uma brincadeira e maroto demais para um livro sério?
O enredo se inicia com Orlando aos dezesseis anos no final do século XVI, e termina em outubro de 1928 com o herói/heroína já como mulher madura. Do livro constam seis capítulos, e é exatamente no terceiro que aos 30 anos, em Constantinopla, Orlando se transforma em mulher.
O comportamento do herói/heroína se altera com o passar dos séculos - Orlando é masculino, violento nos tempos de Elizabeth I e Jaime I, quando conhece Sasha; torna-se pensativo, mórbido, no século X vai para Constantinopla como Embaixador, casa-se com uma dançarina, Rosina Pepita e muda de sexo; retorna à Inglaterra no século XVIII, participa de chás e salões literários e cerca-se de poetas como Pope. No séc XIX, em pleno apogeu como mulher, "cora", usa s; de crinolina, apaixona-se e casa-se com Shelmerdin por fim, no século XX, nasce seu filho; o livro termina em 11 de outubro de 1928.
No mais longo dos romances de Virgínia. A seqüência cronológica é respeitada. Ela registra vários acontecimentos para situar o leitor.
Assim como Ao Farol, Orlando revela algumas das características de prosa impressionista de Virgínia Woolf: Inscrições de cunho pictórico, como por exemplo a da Grande Geada, no primeiro capitulo; há também um jogo de cores permeando o texto. Imagens, metáforas, o aproveitamento da sonoridade das palavras, o uso da linguagem são alguns dos recursos narrativos utilizados pela autora que evidenciam sua capacidade pintar com as palavras, o "seu" impressionismo.

Laura Alves

Suspirou profundamente e lançou-se - havia uma paixão em seus movimentos que justifica a palavra ao chão, aos pés do carvalho. Amava, acima de tudo esta transitoriedade do verão, sentir o apoio da terra embaixo de si; pois assim considerava a dura raiz do carvalho; ou, como imagem puxa imagem, era o dorço de um grande cavalo que ele cavalgava; ou o convés um navio balouçante - era qualquer coisa, na verdade desde que fosse firme, pois sentia necessidade de alguma coisa onde pudesse amarrar o seu instável coração coração que batia em seu peito; o coração que parecia repleto de brisas perfumadas e amorosas quando ele passeava todas as noites por essa hora. Amarrou-o ao carvalho e ao se deitar lá a inquietação dentro e ao redor si gradualmente se acalmou; as folhinhas penderam, veados pararam; as pálidas nuvens de verão estacionaram; seus membros pesaram no chão; e ficou tão imóvel, que aos poucos os veados se aproximaram dele e gralhas voaram em torno e as andorinhas mergulharam em círculos e as libélulas dispararam como se toda fertilidade e a atividade amorosa de um fim de tarde verão se enredassem como uma teia ao redor do seu corpo.
Depois de mais ou menos uma hora - o sol declinava rapidamente, as nuvens brancas se tornaram vemelhas, as colinas roxas, as florestas púrpuras, os vales negros - uma trombeta soou. Orlando ergueu-se de salto. O som penetrante veio do vale. Veio de um lugar escuro lá embaixo, um lugar compacto e bem-delinido; um labirinto; uma cidade cingida por muralhas; veio do coração de sua própria mansão no vale que, enquanto ele olhava e a trombeta solitária se multiplicava em outros sons agudos, perdeu a escuridão e pontilhou-se de luzes. Algumas eram pequenas luzes apressadas, como se criados corressem pelos corredores para atender aos chamados; outras eram altas e brilhantes, como se ardessem em vazios salões de banquetes preparados para receber convidados que não tinham vindo; e outras submergiam e flutuavam e afundavam e ressurgiam, como se carregadas pelas mãos de bandos de criados se curvando, se ajoelhando, se levantando, recebendo, guardando e escoltando dentro da casa, com toda dignidade, uma grande princesa que descia de sua carruagem. Coches manobravam e circulavam no pátio. Cavalos agitavam os penachos. A Rainha chegara.
Orlando não olhou mais. Lançou-se colina abaixo. Entrou por uma portinhola. Precipitou-se pela escada de caracol. Alcançou seu quarto. Atirou as meias para um lado e o gibão para outro. Molhou a cabeça. Lavou as mãos. Aparou as unhas. Com apenas seis polegadas de espelho e um par de velas usadas para auxiliá-lo, vestiu calções vermelhos, gola de renda, colete de tafetá e sapatos com rosetas tão grandes quanto dálias dobradas, em menos de dez minutos, pelo relógio de pé. Ficou pronto. Estava ruborizado. Estava excitado. Mas estava terrivelmente atrasado.
 http://www.4shared.com/document/CzdaWQDL/Virgnia_Woolf_-_Orlando.html

Marcello M.

1 comentários:

Franciele Oliveira (Fran) disse...

Estava procurando uma resenha deste livro que comecei ler e encontrei este blog. Achei muito interessante e passei a seguir.
Se puderem visitem o meu que também tem resenha de livros.
http://fran-insight.blogspot.com/

Feliz ano novo e parabéns pela iniciativa!