Los detectives salvajes (Roberto Bolaño)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010 |


Conheci uma vez em um ônibus um guitarrista chileno que me disse que deu a sua banda o nome de Golden Acapulco. Um nome legal, falei para ele, me lembra algo... “É uma marca de cerveja?” Não, velho, disse ele, é um baseado. É o baseado que Arturo Belano e Ulises Lima vendiam em Los Detectives Salvajes.
É a base destes fragmentos e símbolos, destes boatos e lembranças desconexas que os leitores de Bolaño continuam construindo, nestas primeiras décadas do século XXI, a lenda dos real-visceralistas. Com a precisão dos boatos, com as contradições das lembranças. Porque se a alguma coisa se parece a literatura de Bolaño, essa coisa é a uma religião. Ou melhor: se a alguma coisa se parece o leitor de Bolaño, é a um crente, ou a um noviço. E assim sendo, Los detectives salvajes seria o equivalente ao Antigo Testamento. Ou melhor: seria a Teogonia de Hesíodo. Los detectives é uma Teogonia selvagem. É a crônica fiel - o meticuloso registro, a transcrição dos primeiros depoimentos - da ascensão dum jovem grupo de poetas a um duvidoso panteão canônico. E ao mesmo tempo, Los detectives é o artefato que os fez chegarem lá. Los detectives é a caótica radiografia duma banda de loucos perseguindo outros loucos ou de loucos fugindo nem se sabe de quê. É, por tanto, uma fábula universal.
A estrutura formal desta novela encaixa a perfeição com esta prática, a confissão e a testemunha, o mistério desvendado, o mito. Aproveitando a ligeireza e a dinâmica duma trama policial, os fatos e viagens dos real-visceralistas, som narrados por testemunhas que caem ao seu redor quando já saíram, como as gotas de água que levanta um carro sobre o asfalto úmido.
O livro começa com o diário de García Madero, um jovem estudante de direito e tímido aspirante a poeta, que encontra ao grupo de real-visceralistas e assiste - com uma mistura de horror e fascínio - a transformação do resto da sua vida. Este delirante grupo literário, dirigido por Arturo Belano e Ulises Lima (alteregos de Roberto Bolaño e Mario Santiago), percorrem as ruas de México DF como parasitas ou sub-humanos, conspirando e escrevendo, sobrevivendo a base do tráfico de maconha entre a burguesia boêmia, assistindo a teatros e bordéis com a mesma assiduidade com que furtam livros em cada sebo da cidade. No seu percorrido, só um ponto fixo parece orientar o movimento constante: a busca de Cesárea Tinajero, misteriosa poeta que desapareceu anos há no norte de México, deixando um minúsculo mas cautivador rastro. Sacudidos pelo acaso de uma perseguição homicida entre uma prostitua adolescente e seu mafioso proxeneta, os real-visceralistas aproveitaram a conjuntura para fugir do DF num sedan azul, rumo ao deserto de Sonora.
Chegado a este ponto, a narração se quebra e começa um incessante desfile de fragmentos breves, testemunhas dos mais diversos personagens que, ao longo de vinte anos (do início dos 80 ao final dos 90) e ao amplo de tudo o mundo (Paris, Juárez, Barcelona, Tel Aviv, uma prisão suiça, um camping no sul de França, uma guerra na Africa Subsahariana, de novo o DF), coincidiram com algum membro dos real-visceralistas, e ficaram fascinados com sua história.
E, quando parece que todos os santos estão mortos e não haverá mais testemunhas, a narração volta ao sedan azul saindo do DF rumo ao deserto de Sonora, ao diário de García Madero. E de novo a perseguição e fuga simultânea. De novo a vida e a poesia. Porém, nunca o final.

Por primera vez me atreví a mirar abiertamente a los lados. Cuatro o cinco borrachines patibularios seguían con atención las palabras de Brígida, uno incluso contemplaba mi mano con fijeza sobrenatural, como si se tratara de su propia mano. Les sonreí a todos, no fuera a ser que se enfadaran, dándoles a entender de esa manera que yo no tenía nada que ver en ese asunto. Brígida me pellizcó el dorso. Tenía los ojos ardientes, como si estuviera a punto de iniciar una pelea o de echarse a llorar.
—Aquí no podemos hablar, sígueme.
La vi cuchichear con una de las meseras y luego me hizo una seña. El Encrucijada Veracruzana estaba lleno y sobre las cabezas de los parroquianos se elevaba una nube de humo y la música de acordeón del ciego. Miré la hora, eran casi las doce, el tiempo, pensé, se había ido volando.
La seguí.
 http://www.4shared.com/document/yg3qvO9-/Roberto_Bolao_-_Los_detectives.html

Por Julio Souto
*PDF está em espanhol.

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