Inventário do Ir-remediável (Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010 |


Inventário do Irremediável foi meu primeiro livro publicado. Antes dele, havia um volume de contos chamado Três Tempos Mortos, cujos originais acabaram se perdendo depois de ganharem, em 1968, uma Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego, da Livraria José Olympio Editora. Em 1970, Carlos Jorge Appel editou apenas 500 exemplares pela Editora Movimento, lançados em noite de autógrafos na lendária Livraria Coletânea, do meu maior incentivador (com Madalena Wagner, que nunca mais voltou da Alemanha), o escritor Arnaldo Campos. Em 1982, Pedro Paulo de Sena Madureira propôs reeditá-lo pela Nova  Fronteira. Praticamente rescrevi-o todo nessa época, a artista plástica Magliani fez uma linda capa mas Pedro Paulo desligou-se da editora, eu viajei, entrei em novos projetos e a coisa acabou não andando.
Por que retomá-lo agora, 25 anos depois? Primeiro, ainda acredito nele. Segundo, é praticamente um novo livro. Da primeira edição foram eliminados oito contos, os restantes reescritos, e até o título mudou, passando da fatalidade daquele irremediável (algo melancólico e sem saída) para ir-remediável (um trajeto que pode ser consertado?). Terceiro: acho que se deve insistir na permanência de tudo aquilo que desafia Cronos, o deus- Tempo cruel, devorador dos próprios filhos. Esta reedição fica, assim, como uma espécie de comemoração das minhas, digamos, bodas de prata com a literatura ... Estes contos foram escritos entre 1966, entre Santiago do Boqueirão, onde eu costumava passar as férias na casa de meus pais; Porto Alegre da época da faculdade São Paulo dos primeiros loucos tempos de 1968, AI-5 e ebulição cultural, e finalmente a Casa do Sol, de Hilda Hilst, em Campinas. Foi na casa de Hilda que dei forma final aos textos, inscrevendo-os no Prêmio Fernando Chinaglia para autores ainda inéditos em livro. Creio que o mais perigoso neste Inventário é a excessiva influência de Clarice Lispector, muito nítida em Histórias como Corujas ou Triângulo Amoroso: Variação Sobre o Tema. Mas há ainda outras influências: a do nouveau roman francês de Robbe-Grillet, Natalie Sarraute e Michel Butor, num conto como Ponto de Fuga, e também do realismo-mágico latino-americano (em O Ovo ou O Mar Mais Longe Que eu Vejo), vagas alegorias sobre a ditadura militar do País. Há meros exercícios de forma e estilo, além de textos demasiado pessoais, que soam mais como trechos de cartas ou diário íntimo. Seja como for, com todas as suas irregularidades e muitas pretensões (freqüentemente é demasiado literário), sem dúvida Inventário do Irremediável foi uma das bases de todos os livros que vieram depois. Quem sabe isso talvez possa interessar, além de mim mesmo, a alguns leitores? Gostaria muito que sim.

Caio Fernando Abreu

Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça, acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando, refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam, mas oblíquos olhávamos em tomo numa desconfiança que só findava com algum gesto ou palavra.
Nem sempre oportunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe alguma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para. melhor definir o sentimento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto da consciência de onde, ressabiado, espreitaria. E enveredávamos então pelo caminho do fácil, tentando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as encarávamos rotulando-as sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam forçosamente pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos, não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites. Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três garras quase ridículas na agressividade forçada -condicionadas à sua precariedade, elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos.

http://www.4shared.com/document/1lSGY-1L/Caio_Fernando_Abreu_-_Inventri.html

Marcello M.

1 comentários:

Laís Escher disse...

muito bom seu blog!
adorei :D