A Estrutura da Bolha de Sabão (Lygia Fagundes Telles)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 |


Na obra A Estrutura da Bolha de Sabão, publicado em 1978, Lygia Fagundes Telles aborda temas como a rejeição e a formação da identidade do ser, mas em cada um deles esses elementos estão aliados a outros e são encarados de formas diferentes pelas personagens. A autora aborda sobretudo o universo feminino e suas diversas facetas: percepções e desejos próprios da mulher. Este livro pode ser considerado uma coletânea de contos marcado para repensar a realidade da mulher e a busca da emancipação feminina. Mas não se trata de um livro inteiramente feminista. A figura do homem também é trabalhada a fundo, marcando sobretudo o aspecto da fragilidade e das carências masculinas.

No conto "A confissão de Leontina", a protagonista, é sempre prejudicada por não ambicionar nada da vida e por estar no lugar errado, na hora errada, com pessoas erradas. “Tudo bem, não tem problema”, foi o que aprendeu a dizer a vida toda.

Uma releitura do conto "Missa do galo", de Machado de Assis também está aqui: "Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema". É o olhar feminino de Lygia sobre a mesma situação do conto de Machado.

As narrativas, se lidas na seqüência, nos dá a perceber uma lógica. Por exemplo, o conto que dá nome ao livro tinha que vir no final. É como se os personagens de todos os contos resolvessem fazer uso dessa frágil existência e, com a crueldade pulsante, ao final de tantos desejos inquietos, estourassem finalmente a bolha, representação de amor, ódio, sensibilidade, candura, crueldade e sutileza.

Na literatura de Lygia, memória e invenção se confundem, se misturam. Ela se protege com a “idéia”. Boa parte dos seus contos está em primeira pessoa e nota-se neles sua autobiografia, é como se lêssemos sobre ela. Lygia Fagundes Telles gosta de mergulhar nos detalhes e incógnitas, enigmas, charadas, como no primeiro conto da obra , “A medalha” (que a protagonista amarra no gato).

Com óbvias influências de Clarice Lispector e Hilda Hilst, ela traz o cósmico e o erótico equilibrado em textos como "A confissão de Leontina" e "A fuga". Freqüentemente se vêem as reflexões sobre fidelidade, Deus, a morte e o sonho. Lygia Fagundes Telles poderia então estar enquadrada na Geração 45, pela esquisa lingüística e inquietações temáticas.

A educação castradora, presenta no conto "O Espartilho", o mau ambiente familiar ou relacionamento insatisfatório, presente no conto "A Estrutura da bolha de sabão", produzem o ser humano mutilado e infeliz, pessoas / personagens conflituosas, desencontradas de si ou do mundo, como Leontina. Nem as crianças são poupadas: Luzia, irmã de Leontina sofre lesão cerebral e morre afogada por causa do primo Pedro, que também arruína a vida da protagonista deste conto. São personagens que buscam respostas que dêem sentido à vida. Como interagir da melhor forma com o mundo externo (como Clarice Lispector buscava), buscando interagir, querendo reconhecimento nos outros, presas ao passado dentro do presente, prisioneiras de um tempo esgarçado.

Seu enfoque é urbano e intimista, psicológico. Cheiros, lugares, objetos, roupas, sensações importam apenas como acesso ao mundo interior. Trafega bem na burguesia, mas vai até os menos favorecidos como Leontina.

É um panorama da nossa sociedade: desestruturação do grupo familiar, dissolução dos costumes, conflito de pais e filhos, luta pela maturidade, desajuste social, miséria, desamparo, prostituição. Resumindo: é o relacionamento personagem / mundo. São narrativas de personagens e tem ação lenta. Sugerem mais que descrevem. Constantemente lançam mão do discurso indireto livre. O que os personagens dizem não corresponde a uma forma convencional de ver o mundo e sim com seu estado psicológico, isso sem usar palavras difíceis nem frases que soem artificiais, pelo contrário: um texto que busca a oralidade. Quando é narrador em primera pessoa, ele se interrompe e faz perguntas, sugerem ao leitor sem gestos e expressões, amalgamando forma e conteúdo.
Fonte: Passeiweb

Rolf abotoou a japona. Prosseguiu de mãos nos bolsos, um pouco encolhido. Miguel então veio por detrás e ainda agachado, agarrou o outro pelas pernas, ergueu-o rapidamente por cima do parapeito de ferro e atirou-o no rio. As águas se abriram e se fecharam sobre o grito afogado, se engasgando. 
Debruçado no gradil, Miguel ficou olhando o rio. Vislumbrou seu chapéu que tinha caído e agora flutuava meio de banda na água agitada. Flutuou um instante com movimentos de um pequeno barco negro.  Desapareceu, Um resto de espuma foi se diluindo na superfície acalmada. Miguel apanhou no chão o cigarro ainda aceso e soprou, avivando a brasa. Amarfanhou devagar o maço vazio. Durante algum tempo ficou fumando e contemplando a água. Fez do maço uma bola e atirou-a longe. Não se voltou quando ouviu passos atrás de si. Sentiu a mão tocar-lhe o ombro.
— É proibido atirar coisas no rio. 
 http://www.4shared.com/document/qyFlFycb/Lygia_Fagundes_Telles_-_A_Estr.html

 Marcello M.

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