Estorvo (Chico Buarque)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 |


Homem só, errante, errado, pendurado na vida como um ponteiro de relógio que não assinala presente. Até podia ser outro qualquer não fosse este homem sem nome narrado em memória, em passos divergentes. Estória sublimemente escrita por outro homem que até podia ser outro, noutro homem qualquer, não se chamasse Chico Buarque da Holanda (sim, também escreve como ninguém). Não se arrastasse na História com obras de um enquadramento único. Não fossem seus produtos artísticos testemunhos de humanidade que a salvam da condenação de ser mais uma espécie qualquer, essa humanidade qualquer que às vezes até muito pouco disso tem, vivendo em actos sem fecho de cortina, como selvagens.

Homem só, a confessar memória a cada página, a prender cobardias sem sentido na intenção dos próximos passos. É o estorvo. Da mãe, da irmã, do cunhado, do seu amigo, da ex-mulher, da ex-casa, um prisioneiro da ex-vida, uma sobra. É um solitário que conta a sua estória, em primeira pessoa, sem ter mais nenhuma que não a estória falhada que conta. E saberia muito bem como não existir não tivesse uma estória para contar. É um homem.

A escrita de Chico Buarque é droga pesada, propaganda de vida, um absoluto prazer sem efeitos secundários malignos. Estorvo, primeira aventura do artista brasileiro nos andaimes do romance literário, devia trazer na contracapa um aviso em letras garrafais: Buarque é um vício difícil de largar. Não comece a ler. Estorvo é equilibrado, não cai. E continua por aí nas prateleiras de livros, sem avisos prévios – é para vermos como anda a Protecção Civil! Depois admiram-se se nos arde o peito, se há paixão a mais nas calçadas boémias. Se todos os romances ‘estorvassem’ assim...
Fonte: Rascunho

Não preciso olhar o sexto andar para saber que ele me vigia da minha janela. Verá que aperto o passo e sumo correndo na primeira à esquerda. E chamará o elevador, e chamará o táxi, mas não convencerá o motorista a me perseguir na contramão. Tentará uma paralela, mas eu emboco no túnel, alcanço outro bairro, respiro novos ares. Empacará no trânsito e eu subo as encostas, as prateleiras da floresta, as ladeiras invisíveis com mansões invisíveis de onde se avista a cidade inteira.
O vigia na guarita fortificada é novo no serviço, e tem a obrigação de me barrar no condomínio. Pergunta meu nome e destino, observando os meus sapatos. Interfona para a casa 16 e diz que há um cidadão dizendo que é irmão da dona da casa. A casa 16 responde alguma coisa que o vigia não gosta e faz "hum". O portão de grades de ferro verde e argolões dourados abre-se aos pequenos trancos, como que relutando em me dar passagem. O vigia me vê subindo a ladeira, repara nas minhas solas, e acredita que eu seja o primeiro pedestre autorizado a transpor aquele portão. A casa 16, no final do condomínio, tem outro interfone, outro portão eletrônico e dois seguranças armados. Os cães ladram em coro e param de ladrar de estalo. Um rapaz de flanela na mão abre a portinhola lateral e me faz entrar no jardim com um gesto da flanela. 

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Marcello M.

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