Onde andará Dulce Veiga? (Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010 |


Toda a literatura de ficção que se faz hoje no mundo sofre em alguma medida, com maior ou menor autoconsciência, a influência do cinema. Muitos dos contos, romances e novelas de maior apelo junto ao público têm o que se convencionou chamar de "ritmo cinematográfico" − expressão incongruente, uma vez que o cinema, de Hitchcock a Antonioni, de Kurosawa a Kiarostami, comporta inúmeros ritmos diferentes − e seus eventos são narrados como cenas de um filme. Trata-se, o mais das vezes, de uma dupla regressão: o
cinema mairutream, em particular o que se faz em Hollywood, retoma o modo de narrar do realismo literário do século XIX, e em contrapartida os best-Sellers de nosso tempo ignoram as experiências e conquistas da literatura moderna para imitar o cinemão norte-americano. Romances como os de Don Brown são pouco mais que roteiros fílmicos, e sua maior aspiração é um contrato de adaptação com algum grande estúdio.
As relações entre a prosa ficcional de Caio Fernando Abreu e o cinema são de outra ordem, pertencem a outra linhagem. Escritor cinéfilo, como um Paul Auster ou um Manuel Puig, Caio explora de forma consciente
e deliberada as conexões e os atritos entre a linguagem audiovisual e a escrita, servindo-se das experiências mais fecundas de uma e de outra para ampliar seu instrumental expressivo e aproximar-se do coração selvagem da vida. Os contos e romances de Caio Fernando Abreu pressupõem um acervo de imagens, signos e clichês provenientes do cinema e incorporados à cultura de nossa época. Por isso são freqüentes em seus contos e romances as referências, ora poéticas, ora irônicas, a cenas clássicas, a frases célebres, a estrelas. Nisso, a proximidade com Puig é marcante, embora o autor argentino se mantenha geralmente mais preso ao universo do cinema clássico hollywoodiano e tenha a tendência a reificar os mitos. A abordagem de Caio é mais inquieta e irreverente. Uma passagem de Onde andará Dulce Veiga? ilustra bem essa  sem-cerimônia. De dentro de um táxi, o protagonista-narrador vê partir em outro táxi a mulher que ele estava
procurando. "Eu então toquei o ombro do motorista, e disse finalmente aquela frase com que sonhava há pelo menos trinta anos: − Siga aquele carro". Aqui, como em inúmeros outros momentos deste que é talvez o mais cinematográfico dos escritos de Caio Fernando Abreu, a remissão irônica à memória afetiva do cinema serve como contraponto ao drama narrado e, mais que isso, ajuda a questionar a objetividade e a  confiabilidade do narrador, na melhor tradição da literatura moderna desde Henry James e Machado de Assis.
Em outros casos, com efeitos semelhantes, o autor narra o que se passa como se estivesse num set de filmagem, descrevendo os movimentos de câmera, os closes, os travellinqs e panorâmicas. Na página 93, por exemplo, lemos: "Mas parado na porta − se a câmera mudasse seu enquadramento e substituísse meus olhos pelos olhos de Castilhos ou de alguém postado atrás dele, por sobre seus ombros curvos −, eu também fazia parte daquela cena". Se a literatura best-seller mimetiza o cinema hollywoodiano pré-moderno, que pressupõe uma câmera invisível e uma montagem imperceptível (a chamada "decupagem clássica"), a prosa de Caio Fernando Abreu incorpora as conquistas do cinema moderno, expondo os andaimes da representação, inserindo o narrador no centro da cena, revelando ao espectador/leitor o modo de produção da escrita. Nada mais natural, portanto, que Dulce Veiga chegue ao cinema pelas mãos do cineasta Guilherme de Almeida Prado. As afinidades eletivas entre os dois artistas são antigas e evidentes. Além de amigo pessoal do escritor - como se pode constatar numa das cartas publicadas parcialmente no final deste volume −, Guilherme (autor, entre outros, de A dama do Cine Shangai, Perfume de gardênia e A hora mágica) é um cineasta que costuma exercer a metalinguagem e servir-se da literatura, da música e do teatro para investigar e desnudar a própria natureza do cinema como arte da representação. Suas narrativas cinematográficas são sempre "de segundo grau", no sentido de que discutem a si próprias, discutem sua própria manufatura. Não por acaso, seu filme anterior, A hora mágica, era uma adaptação livre do conto Cambio de luces, de Julio Cortázar, que explora o intervalo entre a fantasia criada pelo rádio e o "real" por trás dos microfones. Os personagens de Guilherme, assim como os de Caio, são encharcados de cinema, de rádio, de televisão, de música e, eventualmente, também de literatura. São como sombras de outros  personagens, espectros viventes, projeções do imaginário de um narrador nada confiável. A Dulce Veiga do romance é, em grande medida, uma aparição, um fantasma, uma projeção - tanto no sentido psicanalítico como no cinematográfico. Seu destino (palavra cara aos personagens de Caio Fernando Abreu) era terminar na tela de cinema. Desde o momento da escrita, seu criador sonhava com isso, e sabia que a pessoa mais indicada para realizar essa transposição, essa travessia, era seu amigo Guilherme de Almeida Prado.

José Geraldo Couto, Fevereiro de 2006

Castilhos bateu no ar um de seus cigarros. Desde que eu o conhecia, há uns vinte anos, fumava três ou quatro ao mesmo tempo. Alguns equilibravam-se na beira da mesa, o contorno metálico cheio de manchas escuras, outros espalhavam-se pelos cinzeiros perdidos entre pilhas de laudas, fotos, clipes, pastas, envelopes, copos de plástico, adoçante artificial, tubos de cola, rolos de dinheiro, bilhetes de loteria, blocos, lápis, canetas, restos de sanduíche, latas de coca-cola dietética e um boi nordestino de cerâmica, que eu conhecia de outras redações. Por trás dele, o ventilador soprou as cinzas contra meus olhos. A sala acarpetada devia estar numa temperatura próxima de um forno crematório. Ele depositou o cigarro num cinzeiro em forma de mãos unidas e abertas em concha, como se esperassem um maná dos céus. Aquele cinzeiro, eu também achava que conhecia. Velhas redações, outros tempos. Na verdade, uma por uma daquelas bugigangas pareciam familiares, inclusive ele. E isso não era exatamente o que eu chamaria de "uma sensação agradável".
http://www.4shared.com/document/awUNJf8s/Caio_Fernando_Abreu_-_Onde_And.html

Marcello M.

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