Noturno no Chile (Roberto Bolaño)

terça-feira, 26 de outubro de 2010 |


Noturno do Chile é um denso monólogo constituído de apenas dois parágrafos: o primeiro ocupa quase todo o livro, e o segundo é uma frase de apenas oito palavras. O padre Sebastián Urrutia Lacroix, o narrador, repassa de modo febril sua vida de poeta e crítico literário "comedido e conciliador", procurando uma resposta para as inquietações que o assaltam na proximidade da morte.
Iniciado no mundo das letras pelo papa da crítica literária chilena, o proprietário rural Farewell (que, além de apalpar-lhe as nádegas, o apresenta ao poeta Pablo Neruda), o padre vive sob a proteção de Pinochet, a quem dá inusitadas aulas de marxismo. Ao misturar personagens reais e ficcionais, Bolaño acerta suas contas com a ditadura chilena e com a vida literária do país. Porém, mais que fazer denúncia política, dá um mergulho fundo nas águas turvas das contradições humanas.

E Farewell, que seguramente conhecia a história mas queria que eu a ouvisse da boca de don Salvador, pediu-lhe que explicasse como tinha conhecido Jünger e em que circunstâncias, e don Salvador sentou numa poltrona com franjas douradas e disse que aquilo acontecera muito tempo antes, em Paris, durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele estava lotado na embaixada chilena. Falou então de uma festa, não sei agora se na embaixada chilena ou na alemã ou na italiana, e falou de uma mulher muito bonita que lhe  perguntou se queria ser apresentado ao notável escritor alemão. Don Salvador, que, naquela época, calculo tivesse menos de cinqüenta anos' isto é, era muito mais moço e vigoroso do que sou agora, respondeu que  sim, que adoraria, apresente-me já, Giovanna, e a italiana, a duquesa ou condessa italiana que gostava tanto do nosso escritor e diplomata, guiou-o através de vários salões, cada salão se abria para outro salão, como rosas místicas, e no último salão havia um grupo de oficiais da Wehrmacht e vários civis, o centro de atenção  de toda essa gente era o capitão Jünger, herói da Primeira Guerra Mundial, autor de Na tempestade do aço, Jogos africanos, Nos rochedos de mármore e Heliópolis, e, depois de ouvir alguns axiomas do grande  escritor alemão, a princesa italiana procedeu à apresentação do escritor ao diplomata chileno, e eles trocaram idéias em francês, claro, depois Jünger, num impulso de cordialidade, perguntou ao nosso escritor se' era possível encontrar alguma obra dele em francês, ao que o chileno respondeu pronta e velozmente de forma afirmativa, claro, havia um livro dele traduzido em francês, se Jünger desejasse ler, teria muito prazer  em oferecê-lo, ao que Jünger respondeu com um sorriso de satisfação, e ambos trocaram cartões de visita e marcaram uma data para jantar juntos, ou almoçar, ou tomar o café-da-manhã, porque Jünger tinha uma agenda lotada de compromissos irrecusáveis, além dos imprevistos que surgiam todo dia e transtornavam de modo irremediável qualquer compromisso previamente adquirido, pelo menos marcaram em princípio uma data para uma once 1 chilena, disse don Salvador, para que Jünger soubesse o que era bom, ora, para que Jünger não imaginasse que aqui ainda andávamos vestidos de penas, depois don Salvador se despediu de Jünger e se foi com a condessa ou duquesa ou princesa italiana, atravessando outra vez os salões  intercomunicantes como a rosa mística, que abre suas pétalas para uma rosa mística, que abre suas pétalas para outra rosa mística, e assim até o fim dos tempos, falando, em italiano, de Dante e das mulheres de  Dante, mas no caso, quer dizer, quanto à substância da conversa, daria no mesmo se tivessem falado de D'Annunzio e das suas putas.
http://www.4shared.com/document/pWLVsjIo/Roberto_Bolao_-_Noturno_no_Chi.html

Marcello M.

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