Livro do desassossego (Fernando Pessoa)

terça-feira, 19 de outubro de 2010 |


O Livro do Desassossego, que tomou diversas formas, também conheceu diversos autores. Enquanto o Livro era só um livro, de trechos pós-simbolistas com títulos, o autor anunciado era Fernando Pessoa, mas logo que entraram trechos diarísticos (o que não deve ter demorado muito), inevitavelmente de cariz mais pessoal, o autor seguiu o seu costume de se esconder por detrás de outros nomes, sendo o primeiro destes Vicente Guedes. Na verdade, Guedes começou por assinar só o diário (ou diários) que devia(m) fazer parte do Livro do Desassossego. Um "livro suave", "a autobiografia de alguém que nunca teve vida" - assim caracteriza Pessoa, num fragmento destinado a um prefácio, o livro de Guedes, a que um outro fragmento chama mesmo o Diário (ver o Apêndice). Por outro lado, o "Diário Lúcido" vem atribuído a Vicente Guedes quando publicado pela primeira vez na revista Mensagem, três anos após a morte de Pessoa. Na verdade, é atribuído tão-somente ao Livro do Desassossego, que por sua vez é dado como "escrito por Vicente Guedes e publicado por Fernando Pessoa", tudo isso entre parênteses, no final do texto. Não há dúvida de que a revista publicou o pequeno diário (ou trecho de um diário) a partir do original - sem assinatura - que está hoje no Espólio, pois o texto é tal e qual, com os mesmos espaços (ou não) entre os parágrafos e a mesma
variante na primeira frase (Pessoa, é claro, não incluiria uma variante num texto preparado para publicação). O mais provável é que o parente ou amigo que pescou os inéditos da arca - o tal diário e dois poemas - também tenha encontrado (no mesmo envelope com o diário) um esquema dos primeiros tempos que identifica, com as mesmas palavras utilizadas na revista, Vicente Guedes como autor ficcional do Livro. Mas não deixa de ser uma estranha coincidência, dados os dotes de Guedes como diarista. Existe um outro texto fragmentário encimado "Diário de Vicente Guedes", mas não "cheira" muito a Livro do Desassossego. Escrito em agosto de 1914, faz escárnio de Fialho de Almeida, "um homem do povo, um pederasta e um grosseirão, criatura da estepe alentejana". Antes de Pessoa lhe confiar um diário, Guedes traduzia, ou deveria estar a traduzir, textos literários que iam de Ésquilo, Shakespeare e Byron até "A Very Original Dinner" e outros contos assinados por sub-autores anglófonos de Pessoa, e escreveu "realmente" um ou outro poema e vários contos, que incluem "A Tortura pela Escuridão", "A Perda do Hiate Quero" e "Uma Viagem no Tempo". Numa das listas com contos seus, o título "A Flor da Esperança" é seguido por uma nota entre parênteses que é reveladora: “What’s this? Don’t know yet”. O Espólio é cheio de "Ainda não sei". Os títulos, como os heterónimos, eram esboços para completar, promessas para cumprir, servindo deste modo para estimular a criatividade de Pessoa. Dois textos guedianos catalogados como contos no Espólio não são verdadeiros contos; constituem, antes, um elo entre o Guedes tradutor/contista e o Guedes diarista/autor do Livro do Desassossego. "Muito Longe", cuja atribuição a Guedes foi posterior ao momento da sua escrita, é narrado pelo Tédio, que pelo visto não mora muito longe d’O Marinheiro. "Sei que nasci nessa terra, mas não me lembro de ali ter morado nunca", conta-nos o Tédio, "Basta-me que tenha eternamente esta nostalgia dessa pátria." Outro pseudoconto de Guedes é um diálogo chamado "O Asceta". Paraísos e nirvanas, avisa o asceta, são "ilusões dentro de outras ilusões. Se vos sonhais sonhar, o sonho que sonhais é menos real acaso do que o sonho que vos sonhais sonhando?". Também aqui não estamos longe, pelo menos nas ideias expressas, d’O Marinheiro. E nenhum dos dois "contos" anda muito longe do Livro do Desassossego dos primeiros tempos. O mesmo manuscrito que identifica Vicente Guedes como autor do Diário, de que se apresenta uma passagem, também inclui um trecho chamado "Paciências" (Trecho 351), sobre os serões, em criança, com as tias velhas numa casa da província, à maneira de Álvaro de Campos mas em prosa, e tudo isto prefaciado pela sigla habitual do Livro e uma curiosa nota, assim:
L. do D.

E do alto da majestade de todos os sonhos, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Mas o contraste não me esmaga - liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço.
A glória nocturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, e do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento do mundo.
E na mesa do meu quarto absurdo, reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos, da minha estátua recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático.

Marcello M.

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