2001 Uma odisseia no espaço (Arthur C. Clarke)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010 |


Cada homem vivo transporta o peso de trinta fantasmas, pois é nesta proporção que o número dos mortos excede o dos vivos. Desde o início dos tempos, cerca de cem biliões de seres humanos caminharam sobre o planeta Terra. Ora, este é um número interessante, pois, por coincidência, há aproximadamente cem biliões de estrelas no nosso universo, a Via Láctea. Portanto, por cada homem que alguma vez viveu, brilha uma estrela neste Universo. Mas cada uma dessas estrelas é um sol, frequentemente muito mais brilhante e glorioso que a pequena estrela a que chamamos o Sol. E muitos - talvez a maioria- desses sois, têm planetas girando à sua volta. Portanto, há com certeza território suficiente no céu para que cada membro da raça humana, desde o primeiro homem-macaco, tenha o seu céu - ou inferno - privado, do tamanho de um mundo. Quantos desses potenciais céus ou infernos são habitados, e por que tipo de criaturas, é coisa que não podemos saber; o mais próximo fica um milhão de vezes mais longe que Marte ou Vénus, esses objectivos, ainda remotos, da próxima geração. Mas as barreiras da distância vão-se esboroando; um dia, encontraremos os nossos iguais, ou os nossos senhores, entre as estrelas. Os homens não têm sido muito lestos a encarar esta perspectiva; alguns ainda esperam que ela nunca se torne realidade. Cada vez mais gente, no entanto, pergunta: «Por que razão não ocorreram já tais encontros, se nós próprios estamos prestes a aventurar-nos no espaço?» E por que não? Este livro é uma resposta possível a pergunta tão razoável. Mas não se esqueçam: esta é apenas uma obra de ficção. A verdade, como sempre, será muito mais estranha.

Os quatro homens-macacos rechonchudos continuavam lá, mas faziam agora coisas extraordinárias. Sentinela-da-Lua começou a tremer de um modo incontrolável; sentia-se como se o cérebro lhe fosse rebentar, e quis desviar o olhar. Mas aquele implacável controlo mental não afrouxava o seu abraço; foi competido a seguir a lição até ao fim, embora todos os seus instintos se revoltassem contra ela. Tais instintos haviam servido bem os seus antepassados, nos dias de chuvas quentes e de luxuriante fertilidade, quando a comida abundava. Dias os tempos haviam mudado, e a sabedoria herdada do passado tornara-se disparatada e inútil. Os homens-macacos tinham de se adaptar ou morrer como os grandes animais que haviam desaparecido antes deles, e cujos ossos jaziam enterrados nas colinas calcarias. Portanto, Sentinela-da-Lua deixou-se ficar a olhar o monólito de cristal sem pestanejar, com a mente aberta às suas ainda incertas manipulações. Sentia náuseas frequentemente, e sempre fome; de vez em quando, as suas mãos agarravam inconscientemente as formas que iriam determinar o seu novo modo de vida.


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Marcello M.

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