Pedro Páramo (Juan Rulfo)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010 |


É preciso chegar ao último mês do ano para me deparar com a melhor leitura de 2007: Pedro Páramo de Juan Rulfo. Quando descobrimos um grande livro, sentimo-lo logo nas primeiras frases que não são frases mas música para a alma. Há uma qualquer cadência de sons e arranjos na leitura de uma obra-prima que é difícil de explicar. É a beleza das palavras, da história, das personagens. Tudo se conjuga numa harmonia perfeita e irrepreensível que nos transporta para um sonho mágico de palavras. A vida real, exterior, pára, remetida à sua insignificância. O livro e o leitor têm-se um ao outro e isso basta. Pedro Páramo é isto tudo e ainda mais: pertence à ordem do belo e do sublime.

Como todos os grandes livros, é preciso eternizar as primeiras frases: «Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal de Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse». Comala é a terra das almas penadas, do inferno e da maldição, abandonada e perdida: «Aquilo está sobre as brasas da Terra, na própria boca do Inferno». O narrador, Juan Preciado, parte em busca do seu pai - Pedro Páramo - depois da sua mãe morrer. Leva no corpo o desejo de lhe cobrar caro o esquecimento e abandono a que os votou.

«Quem é Pedro Páramo?», pergunta quando se aproxima de Comala. «Um rancor vivo», respondem-lhe. Juan Preciado é recebido por Eduviges, uma velha que já o esperava porque a sua mãe, Dolores Preciado, a tinha avisado. «Mas a minha mãe morreu», diz Juan. «Então era por isso que a sua voz estava tão fraca, como se tivesse de percorrer uma distância enorme para chegar até aqui», responde-lhe Eduviges. E é assim que prossegue a aventura num terra onde não se sabe quem está vivo ou morto ou onde começa a realidade e acaba a imaginação. Há todo um rol de personagens enigmáticas que vão aparecendo ao longo da história. Todos têm algo a contar sobre Pedro Páramo, a erva daninha de Comala, que tudo destruiu e a quem todos estão, bem ou mal, ligados.

Bem ou mal ligados a Pedro Páramo também ficam os leitores: «Mutis deu-me aquele pequeno livro. Não dormi naquela noite. Não consegui ler outro livro durante um ano. Revolucionou a minha escrita, ensinou-me quase tudo o que sei hoje», conta Gabriel García Márquez. É impossível ler Cem Anos de Solidão e Pedro Páramo e não encontrar semelhanças. A estrutura das duas histórias é muito idêntica e é óbvio que este livro influenciou a escrita da grande obra-prima de Márquez.

Pedro Páramo pertence ao que se costuma designar por 'realismo mágico' e, por isso, custa imaginar que a ideia para esta história cruel poderá ter partido de alguma situação real. Mas infelizmente parece que a vida de Juan Rulfo não foi nada fantástica: «Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. O meu pai e a minha mãe e mesmo todos os irmãos do meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada», conta Juan Rulfo em Los Muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo.

Frequentemente citado por autores como Jorge Luís Borges, Alvaro Mutis, Carlos Fuentes, Júlio Cortázar e Octavio Paz, Pedro Páramo é uma das obras mais importantes da literatura universal. Autores de outros idiomas, como Günter Grass, Susan Sontag e Gao Xingjian, também fazem parte da lista de admiradores de Juan Rulfo.

Em Portugal, a primeira edição de Pedro Páramo coube às Edições 70, numa colecção coordenada por Eduardo Prado Coelho, nos anos 80. Depois, não houve reedição e encontrar este livro num alfarrabista tornou-se uma verdadeira aventura. Até que a Cavalo de Ferro, com o bom gosto literário a que nos habituou, tomou conta do assunto em 2003 e apresenta-nos agora uma bonita segunda edição.

Juan Rulfo (1918-1986) figura, apesar de brevidade da sua obra, entre os grandes renovadores do romance latino-americano do século XX. Publicou apenas duas obras de ficção: El llano en llamas (1953) e Pedro Páramo (1955). Este último arrecadou os Prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias e consagrou Juan Rulfo como um dos maiores autores da literatura universal.
Fonte: Rascunho

Sem deixar de ouvi-la, pus-me a olhar a mulher que tinha frente a mim. Pensei que devia haver passado por anos difíceis. Seu rosto ficava transparente como se não tivesse sangue, e suas mãos eram murchas; murchas e apertadas de rugas. Não se lhe viam os olhos. Usava um vestido branco muito antigo, carregado de enfeites, e do colo, enfiada em um cordão, pendia-lhe uma Maria Santíssima do Refúgio com um letreiro que dizia: “Refúgio de pecadores.”
-…Esse sujeito de que lhe estou falando trabalhava como “amansador” na Media Luna; dizia chamar-se Inocencio Osorio. Embora todos o conhecêssemos pelo mau nome de Salta-perigo por ser muito leve e ágil para os saltos. Meu compadre Pedro dizia que tinha nascido para amansar potros; mas o certo é que tinha outro ofício: o de “provocador”. Era provocador de sonhos. Isso é o que era verdadeiramente. E a sua mãe enredou-a como fazia com muitas. Entre outras, comigo. Uma vez que me senti doente se apresentou e me disse: “Venho massageá-la para que se alivie.” E tudo aquilo consistia em que se punha a amassar alguém, primeiro nas gemas dos dedos, logo esfregando as mãos, depois os braços, e acabava metendo-se com as suas pernas, friamente, assim que aquilo, após algum tempo, produzia calor. E, enquanto manobrava, falava-lhe de seu futuro. Punha-se em transe, revirava os olhos invocando e maldizendo; enchendo-a de cusparadas como fazem os ciganos. Às vezes ficava em pêlo porque dizia que esse era nosso desejo. E às vezes acertava; beliscava por tantos lados que em algum tinha de dar.
“A coisa é que o tal Osorio prognosticou à sua mãe, quando foi vê-lo, que „essa noite não devia pegar-se a nenhum homem porque a lua estava brava‟.
“Dolores foi dizer-me toda aflita que não podia. Que simplesmente era-lhe impossível deitar-se essa noite com Pedro Páramo. Era sua noite de núpcias. E aí você tem a mim tratando de convencê-la de que não acreditasse no Osório, que de outra parte era um tapeador embusteiro.
http://www.4shared.com/document/p0uPwCda/Juan_Rulfo_-_Pedro_Pramo.html

Marcello M.

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