A prisioneira (Marcel Proust)

segunda-feira, 26 de julho de 2010 |


O narrador em A Prisioneira relata a relação neurótica que mantém com Albertine. Os dois se maltratam sempre, não fica claro se Albertine não casa com nosso narrador porque ele não propõe ou porque a família não autorizaria, pelas condições financeiras do noivo. Naquela época, eles moram juntos, escondidos, e ele começa a ter pensamentos ciumentos doentios em relação a ela. Ele descobre mentiras dela, mas porque fica o tempo todo testando suas respostas. O interessante é que ele quer descobrir se ela o trai, mas na verdade ele a trai mentindo a ela o tempo todo, não confiando nela, para poder seguí-la. Logo no início ele chega a conclusão que não são os homens que o ameaçam e sim as mulheres, que sua mulher mantém desejos e relações com outras mulheres. Mas são tudo subjeções. Ela realmente mente, mas não temos certeza se faz só pra se divertir em confundí-lo, ou por raiva das desconfianças, ou porque ele tem razão e ela o trai. É uma relação deseqüilibrada e neurótica.

Esse casal briga seriamente então, e de forma neurótica, nosso protagonista inverte seu comportamento e se torna a vítima. De perseguidor, ele passar a ser o perseguido. O que mais me surpreende é o fato de alguém se expor tanto e mostrar tanto suas neuroses. Ou ele não tinha consciência de sua neurose e conta para se fazer de vítima, ou ele tem a profundidade de compreender seus atos deseqüilibrados e têm coragem para relatá-los.

Fisicamente, ela também havia mudado. Seus longos olhos azuis mais alongados não tinham conservado a mesma forma; possuíam a mesma cor, mas pareciam ter passado ao estado líqüido. De modo que, ao fechá-los, era como quando a gente impede, com cortinas, a vista do mar. Era sem dúvida dessa parte dela mesma que eu principalmente me lembrava, ao deixá-la todas as noites. Pois, por exemplo, bem ao contrário, pelas manhãs, o crespo de seus cabelos me causou durante muito tempo a mesma surpresa, como uma coisa nova que eu jamais tivesse visto. E, no entanto, acima do olhar risonho de uma moça, o que existe de mais belo que essa coroa anelada de violetas negras? O sorriso propõe mais amizade; mas os aneizinhos envernizados dos cabelos em flor, mais parentes da carne, da qual pareciam a transposição em pequeninas ondas, captam melhor o desejo. Mal entrava em meu quarto, ela saltava sobre a cama e às vezes definia o meu tipo de inteligência, jurava, num transporte sincero, que preferiria morrer a me deixar: eram os dias em que eu me barbeara antes de mandar chamá-la. Albertine era dessas mulheres que não sabem distinguir a razão do que sentem. O prazer que lhes causa uma pele fresca, explicam-no pelas qualidades morais daquele que lhes parece, para seu futuro, representar uma felicidade, aliás passível de diminuir e de tornar-se menos necessária à medida que se deixa crescer a barba.

Perguntava-lhe aonde pensava ir. - Creio que Andrée quer me levar aos Buttes-Chaumont, que não conheço.- Claro que me era impossível adivinhar, entre tantas outras palavras, se por trás destas se escondia uma mentira. Aliás, eu tinha esperança de que Andrée me dissesse todos os locais a que iria com Albertine. Em Balbec, quando me sentia muito cansado de Albertine, pretendera dizer mentirosamente a Andrée: "Minha querida Andrée, se tivesse voltado a vê-la mais cedo! Era você a quem eu teria amado. Mas agora o meu coração está preso alhures. Ainda assim, podemos ver-nos amiúde, pois meu amor por outra me causa grandes aflições e você me ajudará a consolar-me."
http://www.4shared.com/document/AmOQdL-l/Marcel_Proust_-_A_prisioneira.html

Marcello M.

1 comentários:

Sérgio Araújo disse...

Parabéns pelo blog. Estou seguindo e com certeza, estarei sempre por aqui. Abraço.