Os conjurados (Jorge Luis Borges)

quarta-feira, 14 de julho de 2010 |


Escrever um poema é ensaiar uma magia menor. O instrumento dessa magia, a linguagem, é assaz misterioso. Nada sabemos de sua origem. Só sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um deles consta de um indefinido e mutante vocabulário, e de uma cifra indefinida de possibilidades sintáticas. Com esses inacessíveis elementos formei este livro. (No poema, a cadência e o ambiente de uma palavra podem pesar mais do que o sentido.)
Seu é este livro, Maria Kodama. Será preciso que lhe diga que essa inscrição compreende os crepúsculos, os cervos de Nara, a noite que está só e as populosas manhãs, as ilhas compartidas, os mares, os desertos e os jardins, o que perde o olvido e o que a memória transforma, a alta voz do muezin, a morte de Hawkwood, os livros e as lâminas?
Só podemos dar o que já foi dado. Só podemos dar o que já é do outro. Neste livro estão as coisas que sempre foram suas. Que mistério é uma dedicatória, uma entrega de símbolos!

Que terá sonhado o Tempo até agora, que é, como todos os agoras, o ápice? Sonhou a espada, cujo melhor lugar é o verso. Sonhou e lavrou a sentença, que pode simular a sabedoria. Sonhou a fé, sonhou as atrozes Cruzadas. Sonhou os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida. Sonhou a aniquilação de Cartago pelo fogo e o sal. Sonhou a palavra, esse torpe e rígido símbolo. Sonhou o êxtase que tivemos ou que agora sonhamos ter tido. Sonhou a primeira manhã de Ur. Sonhou o misterioso amor da bússola. Sonhou a proa do norueguês e a proa do português. Sonhou a ética e as metáforas do mais estranho dos homens, o que morreu uma tarde em uma cruz. Sonhou o sabor da cicuta na língua de Sócrates. Sonhou esses dois curiosos irmãos, o eco e o espelho. Sonhou o livro, esse espelho que sempre nos revela outra face. Sonhou o espelho em que Francisco López Merino e sua imagem viram-se pela última vez. Sonhou o espaço. Sonhou a música, que pode prescindir do espaço. Sonhou a arte da palavra, ainda mais inexplicável que a da música, porque inclui a música. Sonhou uma quarta dimensão e a fauna singular que a habita. Sonhou o número da areia. Sonhou os números transfinitos, aos quais não se chega contando. Sonhou o primeiro que no trovão ouviu o nome de Thor. Sonhou as opostas caras de Jano, que nunca serão vistas. Sonhou a lua e os dois homens que caminharam pela lua. Sonhou o poço e o pêndulo. Sonhou Walt Whitman, que decidiu ser todos os homens, como a divindade de Spinoza. Sonhou o jasmim, que não pode saber que o sonham. Sonhou as gerações das formigas e as gerações dos reis. Sonhou a vasta rede que tecem todas as aranhas do mundo. Sonhou o arado e o martelo, o câncer e a rosa, as campanadas da insônia e o xadrez. Sonhou a enumeração que os tratadistas chamam caótica e que, de fato, é cósmica, porque todas as coisas estão unidas por vínculos secretos. Sonhou minha avó Frances Haslam na guarnição de Junín, a um palmo das lanças do deserto, lendo sua Bíblia e seu Dickens. Sonhou que nas batalhas os tártaros cantavam. Sonhou a mão de Hokusai, traçando uma linha que logo será uma onda. Sonhou Yorick, que vive para sempre em umas palavras do ilusório Hamlet. Sonhou os arquétipos. Sonhou que ao longo dos verões, ou em um céu anterior aos verões, há uma só rosa. Sonhou os rostos de teus mortos, que agora são embaçadas fotografias. Sonhou a primeira manhã de Uxmal. Sonhou o ato da sombra. Sonhou as cem portas de Tebas. Sonhou os passos do labirinto. Sonhou o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha. Sonhou a vida dos espelhos. Sonhou os signos que traçará o escriba sentado. Sonhou uma esfera de marfim que guarda outras esferas. Sonhou o caleidoscópio, grato aos ócios do enfermo e do menino. Sonhou o deserto. Sonhou o amanhecer que espreita. Sonhou o Ganges e o Tâmisa, que são nomes da água. Sonhou mapas que Ulisses não teria compreendido. Sonhou Alexandre da Macedônia. Sonhou o muro do Paraíso, que deteve Alexandre. Sonhou o mar e a lágrima. Sonhou o cristal. Sonhou que Alguém o sonha.
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Marcello M.

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