O grande Gatsby (Scott Fitzgerald)

segunda-feira, 5 de julho de 2010 |


No romance O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, o dinheiro, o poder e a estabilidade são sinónimos de felicidade, aos olhos de Jay Gatsby. A felicidade é a sua meta, o seu desejo final; mas essa visão, esse sonho é distorcido pela sua ignorância e pela corrupção da sociedade em que se insere.

Por cinco anos Gatsby sonhou com a perfeição, vislumbrando a sua beleza, a luz pálida que transmitiria para toda eternidade, ignorante às realidades que lhe penetraram cada pensamento ou acção. Gatsby quis Daisy, a pequena flor perfeita esperando ser colhida por um homem, o homem certo, um homem que poderia fornecer a estabilidade financeira e a segurança de que ela necessitava. Daisy recebeu não o que quis, pois também queria Gatsby, mas o que, ou quem, merecia, alguém justamente como si própria: Rico, manipulador e egoísta. Parece como se nada jamais terminasse como devia: O sonho de Gatsby foi destruído por Tom e por Daisy pois estes destruíram tudo e todos para depois se esconderem por detrás do dinheiro, negando qualquer responsabilidade pelos seus actos. Daisy recebeu o que mereceu, tal como Gatsby ao olhar tão cegamente para essa luz verde sem nunca ter compreendido que procurava alcançar o inalcançável. Desperdiçou a sua vida num sonho que nunca se realizaria, abrigando o que restava do seu passado, incapaz de ver a falha no seu futuro, na Daisy, em tudo, até que foi tarde demais.

Nick, como Gatsby, teve um sonho, ou pelo menos a aparência de um, que julgava verdadeiro e correcto; por isso se mudou para a zona de West Egg, para seguir esse sonho num novo mundo de mudança e oportunidade. Ele ?comprou dúzias de volumes recorrendo à banca e ao crédito?isso ficou?em vermelho e dourado, como dinheiro novo saído da Casa da Moeda, prometendo desvelar os segredos brilhantes que apenas Midas, Morgan e Maecenas sabiam.? Gatsby também tinha estes livros, teve tudo, mas ter tudo, os livros, a casa, as festas, não significava nada para os que o rodeavam, eles eram somente outra fachada para atrair a única coisa que ele realmente queria, quando simultaneamente sempre soube que ficaria sozinho. Gatsby permaneceu preso no seu sonho, engolido pela majestade, a beleza e a perfeição que procurou em Margarida. Nick pensou ter visto o mesmo em Jordan, mas a sua beleza e o seu ?sorriso insolente? não eram mais do que gestos espúrios destinados a iludir e enganar quem anda ao seu redor. Ao contrário de Gatsby, Nick via através da máscara, para a mulher dentro dela. Gatsby não quis Daisy, ele quis a ideia dela, uma flor, uma margarida, ele queria somente o que todos os outros queriam; apaixonou-se pelo sonho e preferiu ignorar a realidade. A maioria nunca recebe o que verdadeiramente quer, mas sim o que merece. Wilson quis que a sua esposa o amasse, o acarinha-se, que permanecesse com ele, mas era demasiado cego para ver que ela nunca poderia cumprir esses deveres, mesmo como sua esposa. Pedia um coração partido, assim como Gatsby pedia a decepção que encontrou na verdade.

Somos o que queremos. Tom e Daisy, independentemente de quanto horríveis podiam ser como casal, eram perfeitos um para o outro, cada um era uma reflexão do outro. Já Gatsby e Daisy eram inteiramente diferentes um do outro: um vivendo no passado, o outro no presente, um com nada a perder, o outro com tudo perder. Não importava quanto dinheiro ele tivesse, quantos festas pródigas promovia, ele nunca seria o homem de que ela necessitava, ele nunca a teria, tal como jamais alcançaria essa luz verde, esse sonho inalcançável.

Deve-se apenas ao acaso o haver eu alugado uma casa numa das mais estranhas comunidades da América do Norte. Achava-se ela situada na comprida e turbulenta ilha que se estende a leste de Nova York - e onde há, entre outras curiosidades naturais, duas características topográficas nada comuns. A vinte milhas da cidade, um par de ovos enormes, de contornos idênticos e separados apenas por uma gentil baía, se lançam sobre a mais domesticada massa de água salgada do hemisfério Norte, o grande pátio líquido do Estreito de Long Island.

Não são perfeitamente ovais - pois que, como os ovos da história de Colombo, são um tanto achatados em sua base - mas sua semelhança física deve constituir uma perpétua fonte de espanto para as gaivotas que sobre eles voam. Para os que não têm asas, o fenômeno mais interessante é a dessemelhança existente, sob todos os aspectos, entre esses dois ovos, exceto em sua forma e tamanho.

Eu morava em West Egg, o... bem, o menos elegante dos dois, embora este seja um rótulo sumamente superficial para exprimir o contraste bizarro - e que não deixava de ser, de certo modo, sinistro - existente entre ambos. Minha casa ficava bem na ponta do ovo, a somente cinquenta jardas de distância do Estreito, espremida entre duas enormes mansões, cujo aluguel, durante a estação, variava entre doze e quinze mil dólares. A da direita era colossal, comparada a qualquer construção do mesmo gênero: tratava-se, com efeito, de uma imitação de algum hôtel de ville da Normandia, com uma torre ao lado esplendidamente nova sob o seu tênue revestimento de hera, uma piscina de mármore e mais de quarenta acres de relvados e jardins. Era a mansão de Gatsby. Ou melhor, como eu não conhecia o Sr. Gatsby, era uma mansão habitada por um cavalheiro desse nome. Quanto à minha casa, era uma monstruosidade, mas uma monstruosidade insignificante, e, assim, fora deixada no esquecimento, de modo que eu desfrutava de uma paisagem parcial proporcionada pelos relvados do meu vizinho e da consoladora proximidade de milionários - tudo isso por oitenta dólares mensais.

Do outro lado da gentil baía, os alvos palácios do elegante East Egg cintilavam junto à água, e a história desse verão começa realmente na noite em que para lá me dirigi de automóvel, a fim de participar de um jantar em casa dos Tom Buchanans. Daisy era minha prima em segundo grau, e Tom fora meu colega de universidade. Logo depois de terminada a guerra, eu passara dois dias com eles em Chicago.

O marido de Daisy, entre outros feitos físicos, tinha sido um dos mais vigorosos jogadores de rugby que New Haven já conhecera - uma figura nacional de certo modo, um desses homens que atingem, aos vinte e um anos, tão grande e ilimitada excelência em alguma coisa que, depois, tudo em suas vidas cheira a anticlímax. Sua família era riquíssima; mesmo na universidade, sua liberdade em questões de dinheiro era motivo de censuras - mas agora tinha deixado Chicago e vindo para o Leste de uma maneira que quase deixava a gente sem fôlego: comprara, por exemplo, em Lake Forest, um lote inteiro de cavalos de pólo. Era-me difícil compreender como é que um homem de minha própria geração era suficientemente rico para fazer tal coisa.

Por que razão vieram eles para o Leste é coisa que não sei.
http://www.4shared.com/document/QGdBUA4M/Scott_Fitzgerald_-_O_grande_Ga.html

Marcello M.

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