Catatau (Paulo Leminski)

segunda-feira, 26 de julho de 2010 |


Catatau é isso, uma experiência. Um “romance ideia”. É uma leitura diferente, com uma intenção diferente partindo do autor. Nas palavras do próprio Leminski: “O Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entendê-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico.”1

Por isso se você gosta de obras com enredos redondinhos, narrativas lineares e outras facilidades literárias, é melhor (infelizmente) passar longe do livro. Acredito que basta dizer que Catatau tem um só parágrafo para ter uma idéia do que estou falando. Mas se você vencer o “medo” de obras ditas “difíceis” (Joyce, Rosa, alguém?), eu devo dizer que a leitura é muito recompensadora, e a verdade é que lá pela página 30 você já pegou o “jeito” da coisa e lê sem qualquer problema.

Catatau surgiu de um estalo que Leminski teve enquanto dava aula de História. “E se Descartes tivesse vindo para o Brasil com Nassau?” O que vemos é exatamente isso. Temos Descartes (Cartésio) esperando Artiscewsky - no melhor estilo Vladimir e Estragon esperando Godot. Vemos o que Descartes vê, do jeito alucinado que ele enxerga o lugar onde está. A fala toda mescla diversas linguagens, numa tentativa de representar o que era a fala do Brasil na época. Neologismos diversos, além da utilização direta de tupi, latim, japonês, italiano, holandês, francês, grego, espanhol, inglês e alemão.

E mais do que brincar de forma brilhante com o sentido das palavras, é impressionante perceber o ritmo que ele dita durante a narrativa, que apesar de prosa em alguns momentos parecem poesia, é quase como se você estivesse lendo um dos haikais dele. E no meio de toda a confusão do pensamento da personagem, alguns momentos geniais com aquelas frases típicas do Leminski (por exemplo “Num universo impreciso, é preciso ser inexato, dizer sempre quase antes do dito.”). E é por isso que eu insisto na ideia da leitura de Catatau em voz alta, até para esse ritmo ficar mais óbvio, mais destacado.

Tamborém, tambanho waiwén amplodera-se, ó pudera. Pensadédalo desababaca, cogumiolo, coagulo melhor! Amemém. Não se arrepensa, corresponte. Depeperdurado compêndulo, defenduricalho: não me arrepêndulo, capítulo? Combina destrinados: quem ri pior, pia a priori. Lástima, não a lágrima, lampercebejo mas não por última: lancinante, ejápcia. Apaga, estanca, e destaca, pega, estica, espicaça, esmigalha, e desentoca, — o bípede, ambívoro, treva, sombra, ponto, fogo, rio, verme, agora já quase extinto o peso que me espremia, o Prêmio! Asperença se adqueira, cicatrifícios sorbam identicolatrias, todos os levantes serão sofistiquisfeitos: temor nenhum se compara ao temer um tal resultar, apodora-se! Não reflucto o que eu expluso, martírio em meu arbítrio despedrejo: bostejou, espatifa o epatíbio, pajendarecacos! Nem no impropério persa, é pacífico que o raio ilumine melhor o que mais fulmine, calegípicia, expulsa da espuma, expluda Leda plumas anteportas. Peteca no sapato, chinelo no aspecto, tranca rua, arranca tampa! Chora na rampa, limpa as trompas, em distrafe se disfarce a frase! Siso cinza, cesse o que cansa. Ao rés do revés, zás-travás, ao de através: transmimento de pensação, talvez... Em gregogízio, de briga em briaguez, de macambuja, quando começa a poder tudo, escreve uma cartucha em garatuja. Raciocínio de bugre... desaguaxa, encheu a cara, estourou a caixa. Sobre o sonho, muito dito: pouco se aproveita, escrachespache, esprachescrache... De tanto fazer tudo fazer tanto, fez-se como tanto faz, — de que tudo ou nada seria capaz? Desapossesse-se ou loucomplete-se.
http://www.4shared.com/document/J7dmi9gn/Paulo_Leminski_-_Catatau.html

Marcello M.

2 comentários:

Í.ta** disse...

genial este livro!

Luiz Augusto Estacheski disse...

existe uma versão comentáda por Décio Pignatari no site da SEED-PR

http://portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/catatau.pdf