Vinte e zinco (Mia Couto)

quarta-feira, 30 de junho de 2010 |


Vinte e Zinco é uma história antitípica (estória, para ser preciso) em que é mostrado como o 25 de Abril de 1974 foi vivido em Moçambique, porque 1974 não foi um ano de liberdade para os moçambicanos. E por baixo dessa estória, submersa o suficiente para respirar e atingir os leitores sem que estes lhe prestem grande atenção, está a cultura africana, em cada página, em cada personagem que se afaste da realidade portuguesa, das imagens que carregam as palavras grandes deste delicioso escritor.

Um Pide, em Moçambique, perturbado pela morte do seu pai, a seguir-lhe as pisadas, a sua família – que incluía a mãe e a tia, mulher tresloucada segundo os parâmetros conservadores ocidentais das mulheres –, um cego, uma feiticeira, e um país que respira a cada braçada do escritor.

Aos poucos, os ânimos esmoreceram e a praça vazou de gente e de vozes. Mas, a partir daquele episódio, não era só Lourenço a duvidar do real obscurecimento do cego. A suspeita alastrou-se. Como pode um cego autenticado produzir tais desenhações? Afinal, o tipo fingia de conta que não via. Só para lhe devotarem caridades, autorizarem as controversáteis manias dele?
Irrefutáveis, porém, eram os olhos azuis de Andaré. Aquela era a contraprova, a incontestável descoloração em seu rosto negro. E os viventes se arrependiam de alguma vez terem duvidado. Só o pide Castro dava deferimento a suas antigas suspeitas.
http://www.4shared.com/document/iAPPTVV2/Mia_Couto_-_Vinte_e_Zinco.html

Marcello M.

2 comentários:

Í.ta** disse...

mia couto escreve maravilhosamente bem! é encantadora a força da linguagem em seu texto!

william disse...

Eu quero falar desse post. Quero falar do blog.
Cara, esse é o tipo de blog que não sabia que procurava e acabei encontrando.
Poxa, 4 ebooks de Caio Fernando Abreu? Já era!

Parabéns por tudo isso aqui.
Brigado!
Adicionei o link em meu blog.
Até a volta.