O sorriso do lagarto (João Ubaldo Ribeiro)

quinta-feira, 17 de junho de 2010 |


"Trata-se de ficção científica, sim, senhores. Sei que volta e meia encho o saco de todo mundo com aforismos do tipo "Tudo é FC", e outros, mas, no caso, analisando friamente, este livro é, efetivamente, um romance de gênero.
Eu já desconfiava, apesar de não haver assistido à série homônima de TV, produzida pela Rede Globo anos atrás, que - ao se juntar temas tão caros à contemporaneidade como engenharia genética e experimentos biológicos em populações do terceiro mundo - o livro resultante não poderia escapar de ser, ao menos, um tipo de FC com afinidades (e citações explícitas) com o Admirável Mundo Novo, de Huxley.
Quem me conhece sabe que sou um emérito fã do João Ubaldo, leio semanalmente sua coluna nos jornais e estava doido para ler esse livro. Como se diz aqui no Brasil, fui para o jogo "vendido", disposto a gostar de tudo e saí 50% decepcionado. Por quê?
É bom, o livro? Sim, trata-se de um "page turner". A história é boa? Não para mim. Trata-se de um apanhado de situações-clichê (tem até aquela cena clássica, imortalizada pelo cinemão hollywoodiano e pelas novelas da televisão, da queda da escadaria provocando um aborto providencial) muito bem encadeadas e recheadas de diálogos primorosos. A história, aqui, é um fiapo, uma desculpa para um desfile de opiniões do autor a respeito dos mais diversos assuntos, de racismo a política, de ecologia a drogas, através das bocas de seus personagens.
Por falar em personagens, as construções não me cairam muito bem, apesar da belíssima descrição física e da individualização, mas, vejamos, os protagonistas um biólogo fracassado, transformado em peixeiro; um padre de vilarejo com crises de consciência e uma dondoca de sociedade com personalidade fraturada, espécie de mistura entre Jackeline Susann e alguma socialite da Barra da Tijuca; são um déjá vu só. Os vilões, então, não ficam atrás! O político mau-caráter e homossexual enrustido; o cientista com trejeitos de Lex Luthor... um festival de "dê-já-vi-isto" apesar de, sempre, donos de vozes poderosas e convictas! Há, porém, uma ressalva o pai-de-santo culto e descrente dos próprios poderes é um achado! Bará, o Santinho, com sua fala empolada e "ética profissional" é um coadjuvante excepcionalmente bem construído, daqueles que deixam saudades ao fim da leitura.
O que deveria ser a trama central é uma versão mulata de A Ilha do Dr. Moreau, onde um laboratório, com a supervisão subreptícia de empresas norte-americanas, fazem experiências in-vitro com mulheres da população de uma ilha no litoral do nordeste brasileiro, produzindo híbridos de homens e macacos. Na página 149, o padre fica sabendo da existência dos tais monstros até então nunca citados. Por volta da página 280, os protagonistas saem em ação para combater o que acreditam ser o mal. Na página 362 acaba o romance. O resto conta como quase todos os personagens (à exceção do padre, que meu olho mental insiste em ver na figura do ator Nelson Xavier, do pai-de-santo e mais uns poucos) se relacionam sexualmente uns com os outros. Creio que o leitor tradicional de FC, púdico, vai ficar absolutamente chocado... e isso é um ponto positivo!
Vale a pena ler? Sim, sem dúvida. João Ubaldo Ribeiro escreve muito bem e, por mais que se possa discordar de suas idéias, é impossível largar o livro antes do fim."
Octávio Aragão

Geralmente, é de graça. Pode pó de graça, já imaginou, mesmo ele sendo rico? Quer dizer, o cara que arranja o pó para ele vive tomando dinheiro emprestado e nunca paga, essas coisas, mas basicamente sai de graça. Direto da polícia, da melhor qualidade, como o da polícia sempre é. Quem descola é esse cara, um primo dele que foi criado junto com ele e não deu para nada e foi ser polícia e também cheira em escala industrial, sempre esqueço o nome dele. Alcíades, veja que nome. Pois Alcíades não falha nunca e aí, com aquele pó todo em casa, dava dez horas da noite e Tavinho, depois de devorar ovos quentes como um gambá o dia todo — era a única coisa que ele conseguia comer nessas horas, além de beber o leite de umas quarenta vacas — e dizer que estava se sentindo bem alimentado, resolvia dar um realce. Somente um realce, sabe como é, um
realcezinho. Realce esse, já viu, não é? Quando ele levantava a cabeça da bandejinha térmica, com os olhos faiscando e aquele biquinho e dava aquela fungadinha esfregando a aba do nariz, você podia enroscar uma lâmpada de 200 velas na boca dele, que acendia no ato. Aí, pronto, aí ficava tudo normal de novo, tudo natural, todo mundo voltava a dever comer todo mundo etc. etc. etc, a mesma transação de sempre.
http://www.4shared.com/document/2YYY87S6/Joo_Ubaldo_Ribeiro_-_O_Sorriso.html

Marcello M.

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