O processo (Kafka)

terça-feira, 29 de junho de 2010 |


O romance conta a história de Josef K., bancário que é processado sem saber o motivo. A figura de Josef K. é o paradigma do perseguido que desconhece as causas reais de sua perseguição, tendo que se ater apenas às elucidações alegóricas e falaciosas advindas de variadas fontes.

Embora Kafka tenha retratado um autoritarismo da Justiça que se vê com o poder nas mãos para condenar alguém, sem lhe oferecer meios de defesa, ou ao menos conhecimento das razões da punição, podemos levar a figura de Josef K., bem como de seus acusadores, para vários campos da vida humana: trabalho (quem nunca se viu cobrado ou perseguido, sem que seus acusadores lhe dissessem em que estaria sendo negligente), religião (quem nunca se viu pego, de surpresa, como Josef K., por um fanático intransigente, dizendo que teríamos ferido as leis divinas, sem que nos fossem apresentados os motivos), na escola (quem nunca se viu como Josef K., ao ser criticado por seu desempenho, sem que soubesse em que havia falhado, com críticas vagas, por vezes de colegas, por vezes dos próprios mestres).

Muito embora se preste às mais diversas interpretações, desde aquelas fundadas nos axiomas filosóficos até a mais profunda radiografia feita pela Sociologia, de fato, O Processo fornece farto material àquele que se debruça sobre o estudo para além da mera Dogmática Jurídica, de vez que, por meio de um conto que mais se assemelha a uma parábola, Kafka reproduz a negação do Estado Democrático de Direito e, ao mesmo tempo, leva o leitor a perceber que, mesmo vivendo sob a égide da Democracia "plena", há que se não perder de vista que as instituições não guardam sua razão de ser na prestação de serviço público, mas na submissão ao poder e às camadas dominantes.

Nesta obra, o protagonista, atônito, ao ser informado que contra ele havia um processo judicial (ao qual ele jamais terá acesso e fundado numa acusação que ele jamais conhecerá), percorre as vielas e becos da burocracia estatal, cumpre ritos inexplicáveis, comparece a tribunais estapafúrdios, submete-se a ordens desconexas e se vê de tal modo enredado numa situação ilógica, que a narrativa aproxima-se (e muito) da descrição de confusos pesadelos.

Mas não distam muito de pesadelos os processos reais que tramitam nos vãos da estrutura pesada, arcaica, burocrática e surreal das instituições zelosas da Justiça, de modo que, por fim, Franz Kafka terá sempre o mérito de ter, no início do século passado, retratado a sociedade de muitos povos, com fidelidade e crueza dignos de alçar sua obra à imortalidade.


Enquanto estava à janela e esfregava os olhos cansados, chegou mesmo a pensar, durante momentos, em persuadir a menina Bürstner a sair da pensão com ele, castigando assim a senhora Grubach. Porém, logo a seguir, essa idéia pareceu-lhe horrivelmente exagerada, e suspeitou mesmo que ela nascera devido aos acontecimentos dessa manhã. Nada teria sido mais insensato e acima de tudo mais inútil e ridículo. Quando se fartou de olhar para a rua deserta, entreabriu a porta que dava para a antessala e estendeu-se em cima do canapé para daí poder dar conta de quem quer que entrasse em casa. Até cerca das onze deixou-se ficar sossegado no canapé. Depois, não se contendo mais, foi um pouco para a antessala, como se isso pudesse fazer chegar mais cedo a menina Bürstner. Não tinha qualquer desejo especial de a ver, nem sequer se lembrava do seu aspecto, mas agora queria falar com ela; além disso, sentia-se irritado pelo facto de o dia ainda acabar em desassossego e, desordem devido à chegada tardia da menina Bürstner. Igualmente por causa dela, tinha deixado de jantar e visitar Elsa como havia previsto. No entanto, ainda podia fazer ambas as coisas que pusera de parte, indo ao restaurante onde Elsa trabalhava. Era isso que queria fazer mais tarde, depois de conversar com a menina Bürstner. Já passava das onze e meia quando se ouviram uns passos no vão da escada. K.? que entregue aos seus pensamentos passeava tão ruidosamente na antessala como se estivesse no seu próprio quarto, fugiu para atrás da porta. Era a menina Bürstner que acabava de chegar. Tiritando de frio, aconchegou aos ombros estreitos um xaile de seda enquanto trancava a porta. Logo a seguir, dirigir-se-ia ao seu quarto, no qual, sem dúvida nenhuma, K., àquela hora, cerca da meia-noite, não devia introduzir-se. Portanto, era forçoso falar-lhe agora; infelizmente, porém, tinha-se esquecido de acender a luz eléctrica do seu quarto, de maneira que sair assim da escuridão daria a ideia de um assalto e, pelo menos, causaria bastante medo à rapariga. Atrapalhado, e porque não havia tempo a perder, murmurou através da frincha da porta, num sopro que era mais um pedido do que um chamamento:
- Menina Bürstner.
- Está aí alguém? perguntou ela, olhando à volta com os olhos muito abertos.
- Eu respondeu K. aparecendo.
- Ah! O senhor K.! exclamou ela com um sorriso. Boa noite acrescentou, estendendo a mão a K.
- Desejava dizer-lhe uma coisa, se me permite. Agora? perguntou a menina Bürstner. Tem de ser agora? E um pouco esquisito, não acha?
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Marcello M.

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