Noites brancas (Fiódor Dostoiévski)

segunda-feira, 14 de junho de 2010 |


O livro que mais aproxima Dostoiévski do romantismo, foi escrito em 1848, antes de sua prisão.
Como personagem central se tem o Sonhador, que em uma das noites brancas da capital São Petersburgo apaixona-se por Nástienka. Nesta obra, diferentemente de outras, em que a preocupação social é a diretriz para o enredo, desta vez encontramos um Dostoiévski romântico, lúdico. O personagem principal, que ao contrário das versões teatrais e cinematográficas, não tem nome, vaga errante pela "noite branca" de São Petersburgo.
"Noite branca" refere-se a um fenômeno comum na Europa em que, mesmo à noite, o sol não chega a se pôr completamente, causando uma atmosfera onírica. Um encontro casual muda completamente a vida do até então solitário protagonista: conhece a ingênua e também sonhadora Nástienka, que aos prantos, espera aquele a quem um ano antes tivera prometido o seu amor.
Ao longo das quatro noites seguintes, o protagonista se apaixona pela moça e conhece a sua inusitada história: Nástienka vive atada com um alfinete à saia da avó cega e ao lado da criada surda. Quando um novo inquilino chega a sua casa, ela vê a possibilidade de escapar de sua solidão. O misterioso homem um dia deixa a casa, prometendo que voltaria depois de um ano, quando tivesse condições de casar-se com ela. Quando o protagonista encontra Nástienka na ponte sobre o rio Nieva, estamos exatamente no dia marcado para o reencontro. Mas nenhum dos três personagens pode prever o que o destino preparou para eles. Essa obra teve várias adaptações para o teatro.

Com olhos comovidos olha as nuvens vespertinas que deslizam pelo cálido céu petersburguês. Não, não lhe minto ao dizer-lhe que ele as vê; na realidade não as vê, porque ele não vê absolutamente nada, mas olha, e olha tudo de um modo inconsciente, como se estivesse cansado ou como se tivesse ao mesmo tempo o pensamento ocupado com outra coisa diferente, longínqua, especial, de tal maneira que não tarda em ter para tudo quanto o rodeia mais do que um ligeiro olhar, e isto ainda quando um acaso consegue distrair a sua atenção. Sente-se quase feliz, pois deu já por terminada a sua tarefa até ao dia seguinte; alegre como um colegial que se levanta dos bancos da escola e pode de novo entregar-se às suas brincadeiras e distrações favoritas. Se a Nástienhka pudesse observá-lo à socapa, havia de ver como essa alegria começava logo a atuar beneficamente sobre os seus nervos alterados e sobre a sua fantasia, de uma excitabilidade doentia. Julga que ele pensa em comer? Ou na tarde que tem ainda à sua frente? O que será que o preocupa tanto? Será aquele cavaleiro que, com tanta cortesia, e sem dúvida de maneira tão pitoresca, saúda a dama que passa junto dele naquela carruagem magnífica? Não, Nástienhka; que lhe importam a ele todas essas insignificâncias? Agora ele é rico da sua própria vida, da sua vida íntima; tornou-se rico de um momento para o outro, e o último raio do sol poente não brilhou em vão, tão cheio de calor vital, ao despertar no seu coração ardente uma multidão de impressões. Agora mal atenta no caminho, cujas particularidades mais pequenas ainda há um momento observava com tão grande interesse. É que a deusa fantasia já o envolveu na sua dourada rede que encheu de visões estonteantes, de uma vida gratuita e prodigiosa: e talvez (quem pode sabê-lo?), talvez o elevasse já, nas suas mãos caprichosas, desde o passeio duro de granito, pelo qual vai caminhando em direção a casa, até ao sétimo céu, aquele que fica mais longe deste mundo. Se nesse momento pretendesse, sem mais nem menos, falar com ele e perguntar-lhe onde se encontra nesse preciso instante, por que rua vai a caminhar... ele não poderia responder nem a uma coisa nem a outra e, possivelmente, corando de vergonha, responder-lhe-ia qualquer coisa, a primeira que lhe viesse à cabeça. Por isso mesmo também ele estaca de repente e se põe a olhar à sua volta, assustado, só porque uma velhota o fez parar no meio do passeio e lhe perguntou por uma rua, que não sabe onde fica. Com uma feição aborrecida e contrariada, continua sempre a caminhar, sem reparar que mais de um transeunte se ri ao vê-lo e que mais de um o segue com o olhar, e que uma senhora que o evitou aflitivamente, de repente se põe a rir como uma menina, tão grotescas se lhe afiguram a cara e o sorriso aéreo, o gesticular das mãos do sonhador. Mas eis que já a mesma fantasia arrebatou nas suas asas travessas a velha, os transeuntes curiosos e os moços rústicos que buscam o descanso da tarde, ali, no Fontanka — suponhamos que o nosso herói se encontra neste momento junto do cais do canal — tudo isso foi apanhado na rede caprichosa da fantasia, tal como a teia de aranha aprisiona as moscas. Com este despojo recém-conquistado entra o extravagante em sua casa, senta-se à mesa e come, e depois de terminada a refeição ainda não voltou completamente a si; até que a infalível Matriona, mal-humorada e taciturna, lhe vem trazer o cachimbo; até esse momento, como disse, ainda não caiu completamente em si, e então repara com assombro que já comeu, sem ter sequer dado por isso. É já escuro no seu quarto e ele tem a alma triste e vazia. À sua volta desvaneceu-se todo um império de sonhos: secretamente, sem ruído, sem deixar provas, como só um sonho pode desvanecer-se, e ele nem sequer poderia contar aquilo que viu. Mas um obscuro sentimento que começa a agitar-se no seu coração, pouco a pouco lhe vai infundindo um novo anseio, afagando, sedutor, a sua fantasia e, sem querer, aí volta à sua frente uma nova cavalgada de visões. Reina o silêncio no pequeno quarto; a solidão e o ócio acariciam a sua imaginação que, suavemente, começa a esquentar-se; produz-se nela um leve movimento, uma espécie de fervura imperceptível semelhante à da água na máquina de café da velha Matriona que anda por ali perto na sua lida, na cozinha, fazendo placidamente o café; demora tanto e só agora começou a ferver... De súbito, ainda antes de ter chegado à terceira página, das mãos do nosso sonhador tomba o livro que maquinalmente, apenas por hábito, tinha tirado da prateleira. A força da sua imaginação voltou a reanimar-se e, como por encanto, eis que surge em seu redor um novo mundo, uma nova vida encantadora. Um novo sonho... uma nova felicidade. Novo, requintado e doce veneno... Oh, que lhe interessa a ele esta vida real! Segundo a sua limitada maneira de ver, nós, os outros, ó Nástienhka! levamos uma vida lenta, monótona e vazia. Segundo ele pensa, estamos todos descontentes com a nossa sorte e atormentados pela existência... E de fato é verdade: há de reparar como entre nós, os que não somos sonhadores, ao primeiro olhar tudo parece frio, árido e hostil, como se tudo fosse mau e inimigo... “Coitados!”, pensa o meu sonhador. E não é nada de estranho ele pensar assim. A Nástienhka não pode ver essas visões mágicas que surgem à sua frente, tão sedutoras, tão magníficas, tão sem limites, como que nascidas do próprio nada, visões em cujo primeiro plano aparece sempre, nem seria preciso dizê-lo, o nosso sonhador com o seu eu tão querido. Não pode ver que aventuras, que série inesperada de coisas lhe acontecem. A Nástienhka pergunta: “Mas com que sonha o senhor?” Para que perguntá-lo? Sonho simplesmente com tudo, com tudo... Com o destino dum poeta que a princípio não é reconhecido e mais tarde vem a despertar um interesse universal; na sua amizade com E. T. A. Hoffmann, com a noite de São Bartolomeu1, com Diana Vernon2, com uma ação heróica na tomada da cidade de Kazan3 pelo czar Ivan Vassílievitch4, com uma estrela do tablado, com uma bailarina, com João Huss5 antes do Concilio, com a ressurreição dos mortos em Roberto, o Diabo6 (conhece essa partitura? Cheira a cemitério), com Minna7 e seus comparsas, com a batalha de Berezina8, com a recitação de uma poesia em casa da condessa V. D., com Danton, com Cleópatra e i suoi amanti, com uma casinha de Kolomna9, com um cantinho muito petersburguês onde pudesse ter sentadinha a seu lado uma mulherzinha muito amada que, com a boquinha e os olhos muito abertos, o escutasse nos serões do inverno... tal qual como a Nástienhka me está escutando agora, minha pombinha... Não, Nástienhka, que lhe importa a ele, ao nosso apaixonado preguiçoso, que lhe importa esta vida terrestre que a nós tanto nos encanta? Para ele é uma pobre, uma mísera vida que merece compaixão, e nem sequer supõe que também alguma vez há de chegar para ele a hora em que daria com gosto todas as suas fantasias por um só dia dessa vida, e até mesmo, não por um dia alegre, ou por uma felicidade, pois nem sequer há de poder escolher nessa hora de pesar, de arrependimento, e de autêntica dor. Mas por enquanto não chegou ainda esse dia terrível... e ele nada deseja porque paira acima de todos os desejos, porque já os tem todos, porque já está repleto e é o próprio artista da sua vida, e pode a todo instante modelá-la à sua vontade. E surge tão fácil tão naturalmente, esse fantástico mundo de fábula, como se tudo não fosse senão uma invenção do cérebro.

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