As ondas (Virginia Woolf)

quarta-feira, 2 de junho de 2010 |


"Eu passarei como uma nuvem por cima das ondas", escreveu uma vez Virginia Woolf. Não foi a única referência que deixou sobre o mar, elemento que mais a atraía. Nem foi casual o título da obra à qual dedicou mais tempo e reflexões que às outras. Com As Ondas, Woolf sabia que mergulhava nas profundezas do ser humano. Fê-lo com um manejo da língua quase poético. Expôs a análise pessoal em monólogos elaborados. Queria que fosse uma obra perfeita, e conseguiu-o, em muitos sentidos.
As Ondas narra as vivências de um grupo de seis pessoas através do tempo. Elas crescem, amadurecem e envelhecem, num processo visto de uma perspectiva interior. São indivíduos que
arrastam as suas características, os seus medos e as suas solidões, e os comunicam entre si. Seis mundos que formam um só. Através das personagens, Woolf expõe os temas que constituem a sua preocupação constante: a passagem do tempo, o sentido da existência humana, a realidade das coisas e a morte.
Estas questões metafísicas tomam forma nos membros do grupo de amigos que protagonizam a obra. Bernard, curioso e verbalmente criativo; Susan, interessada na unidade familiar; Rhoda, insegura e temerosa; Jinny, sensual e superficial; Neville, com a sua obsessão pela ordem e rigor intelectuais; Louis, com o seu complexo de inferioridade. Os seis admiravam Percival, personagem fundamental que não tem voz no romance e cuja morte marca um ponto crucial. Todos temos um pouco de cada um destes amigos. Sofremos os seus problemas e as suas dúvidas; vivemos a nossa própria solidão no meio dos outros. A mestria de Woolf está em ter chegado a esses fugidios cantos do espírito humano. Como as ondas.


Estou só. Vou à escola pela primeira vez. Toda a gente parece estar a agir de acordo com o momento presente; nunca mais. Nunca mais. A urgência de tudo isto é assustadora. Todos sabem que vou à escola pela primeira vez. “Aquele rapaz vai à escola pela primeira vez”, diz a criada, limpando os degraus. Não devo chorar, devo encará-los com indiferença. Agora, os horríveis portões da estação abrem-se de par em par; “o relógio com cara de lua olha-me”. Vejo- me obrigado a fazer frases e frases, colocando assim qualquer coisa de concreto entre mim e o olhar das criadas, dos relógios, de todos aqueles rostos indiferentes. Se não o fizer, ver-me-ei obrigado a chorar. Lá está o Louis. Lá está o Neville. Estão ambos junto às bilheteiras, envergando casacos compridos e transportando as suas malas. Têm um ar composto. Apesar disso, estão diferentes.




Marcello M.

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