Riso no escuro (Vladimir Nabokov)

quinta-feira, 6 de maio de 2010 |


Este é um romance sobre o amor como crueldade. admirador das artes, bem-nascido e dono de uma vida confortável, casado com elizabeth, moça de boa família, e pai de irma, uma menina de oito anos, albinus se vê subitamente desafiado por uma inquietação íntima que ele identifica como ânsia sensual. no escuro do cinema, esse vazio ganha silhueta, rosto e, finalmente, um nome: margot peters. A adolescente petulante destrói o homem casado, que toma como amante com rudeza predatória. obriga-o à separação, gasta o dinheiro dele, humilha-o com sua vulgaridade. albinus se entrega como quem se abandona a um destino. o desastre anunciado sobrevém em doses dolorosas. margot manobra, manipula. e o leitor ouve um riso mansinho, no escuro.

Em seu tempo de estudante, tivera uma ligação tediosa, enfadonha, com uma senhora triste e mais velha do que ele, que, durante a guerra, lhe enviava para o front pares de meias roxas, camisetas de lã que lhe causavam comichões e enormes e apaixonadas cartas, escritas, com a máxima rapidez, numa letra irregular e ilegível, em papel pergaminho. Depois, tinha havido aquele caso com a esposa de Herr Professor, que conhecera no Reno. Era bela, quando vista de determinado ângulo e sob certa luz, mas tão fria e pudica que ele logo a abandonara. Finalmente, em Berlim, pouco antes de seu casamento, tinha havido aquela mulher esguia e fatigante, de rosto caseiro, que costumava aparecer todos os sábados à noite e que gostava de contar-lhe, com pormenores, todo o seu passado, repetindo incessantemente todas aquelas mesmas e enfadonhas coisas, a suspirar, com ar de cansaço, em meio de seus abraços e a terminar sempre os seus comentários com a única frase que sabia em francês: “C’est la vie”. Equívocos, tentativas, decepções. O Cupido que o servia era, sem dúvida, canhestro, tíbio e sem imaginação. E, juntamente com esses romances medíocres, tinham existido centenas de môças com as quais sonhara, mas que jamais chegara a conhecer; haviam apenas passado por ele, deixando-lhe, durante um ou dois dias, aquela irremediável sensação de perda que faz da beleza o que ela realmente é: uma árvore distante e solitária tendo por fundo um céu dourado; ondulações de luz na curva interior de uma ponte; uma coisa inteiramente impossível de se aprender.
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Marcello M.