Paris é uma festa (Ernest Hemingway)

segunda-feira, 24 de maio de 2010 |


'Paris é uma Festa' revela um Hemingway diferente. Em Paris, aos 22 anos, ele lê, pela primeira vez, clássicos como Tolstói, Dostoievski e Stendhal. Convive com Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, figuras polêmicas e encantadoras para o jovem Hemingway. A cidade e esses 'companheiros de viagem' deram-lhe nova dimensão do humano e maior sensibilidade para alcançar os seus dois objetivos primordiais na vida: ser um bom escritor e viver em absoluta fidelidade consigo próprio. Há, em 'Paris é uma Festa', momentos de suave melancolia, alternados com outros de cortante, quase selvagem crueldade
Fonte: Livraria Cultura

Eu era muito tímido quando entrei na livraria pela primeira vez, não tendo dinheiro sequer para me inscrever na biblioteca de aluguel. Sylvia me disse que eu podia pagar o depósito quando tivesse dinheiro, preparou o meu cartão e encorajou-me a levar quantos livros quisesse.
Não havia motivo para que ela confiasse em mim dessa maneira. Não me conhecia, e o endereço que lhe dei, rue Cardinal Lemoine, nº 74, não podia ser mais pobre. Mas ela foi cordial, encantadora e amabilíssima; atrás dela, em toda a altura da parede e estendendo-se para a sala dos fundos, que dava para o pátio interior do edifício, havia estantes e mais estantes carregadas do tesouro da biblioteca.
Comecei com Turguenev e tomei os dois volumes de A Sportsman's Sketches e um dos primeiros livros de D. H. Lawrence, creio que Filhos e Amantes; Sylvia disse-me que levasse mais livros, se eu quisesse. Escolhi a edição de Guerra e Paz preparada por Constance Garnett, e O Jogador e Outros Contos, de Dostoievsky.
- Você não voltará tão cedo se fôr ler tudo isso - disse Sylvia.
- Voltarei para pagar - respondi. - Tenho algum dinheiro no meu apartamento.
- Não me referia a isso - disse ela. - Você pagará quando lhe for conveniente.
- Quando é que Joyce costuma vir aqui? - perguntei.
- Quando vem, é em geral ao fim da tarde – disse ela. - Você não o conhece pessoalmente?
- Já o vimos no Michaud, comendo com a família - disse eu. - Mas não é delicado olhar as pessoas quando elas estão comendo e, além disso, o Michaud é caro.
- Você costuma comer em casa?
- Agora quase sempre - disse eu. - Temos uma boa cozinheira.
- Não há restaurantes perto de onde você mora, não é?
- Não. Como é que sabe disso? - perguntei:
- Larbaud viveu por ali - disse ela. - Gostava muito do bairro, exceto por isso.
- O lugar mais próximo, onde se pode comer bem e barato, fica além do Panthéon.
- Não conheço esse bairro. Nós também comemos em casa. Você e sua mulher devem aparecer uma noite dessas.
- Espere até ver se eu Ihe pago - disse eu. – Mas muito obrigado pelo convite.
- Não leia depressa demais - disse ela.
http://www.4shared.com/document/WPxzSD6w/Ernest_Hemingway_-_Paris__uma_.html

Marcello M.

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