É apenas na aparência que esta inesperada e surpreendente história de amor entre um ancião e uma ninfeta se insere numa tradição da qual fa-zem parte o Vladimir Nabokov de Lolita, o Thomas Mann de Marte em Veneza e o Yasunari Kawabata de A casa das belas adormecidas, ain-da que este último tenha sido citado na epígrafe de Memória de minhas putas tristes e fornecido o mote a partir do qual o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez pôs fim a um período de dez anos longe dos romances.
Um leitor mais atento vai encontrar aqui as principais referências e moti-vações desse hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário do Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Apesar de parecer estranho, uma dessas chaves está no conto de fadas A bela adormecida, que, não por acaso, é citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginá-ria, numa época que de tão remota parece imemorial.
A semelhança com a famosa fábula do escritor francês Charles Perrault fica mais explícita na adolescente, que aqui surge dormindo, como se estivesse à espera do seu príncipe encantado. Mas ela também está presente no velho jornalista, narrador dessas memórias, que vai viver cerca de cem anos de solidão embotado e embrutecido, escrevendo crônicas e resenhas maçantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramática para alunos tão sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres des-cartáveis.
Só quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadina é que este personagem vai ganhar a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrás de si um dos generais que se revezaram no poder da mítica Colômbia de Gabriel Garcia Márquez. O medo do amor é tão superlativo que o anti-herói dessas memórias vai preterir conviver com a mais terrível ameaça para o macho latino: o fantasma da impo-tência. E enquanto tivesse forças, resistiria ao poder do amor.
Parte desse medo se deve aos ridículos a que o amor nos expõe, aqui elevado à última potência em cenas como a que o ancião anda numa bicicleta cantando “com ares do grande Caruso”, ou aquela em que des-trói um quarto de bordel. por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um paletó dois números acima do nosso, apenas ele e tão somente ele, o amor, nos faz humanos, como desde tempos imemo-riais a arte vem tentando provar. Seja nos boleros mais sentimentais, que ressoam nas paixões evocadas pelos grandes mestres da ficção, ou em obras-primas como esta.

A ansiedade continuava a durar em mim naquela noite, enquanto desembrulhava os presentes em casa. Os linotipistas desacertaram com uma cafeteira elétrica igual às três de meus aniver-sários anteriores. Os tipógrafos me deram de presente uma autorização para apanhar um gato angorá no depósito municipal. A gerência me deu uma bonificação simbólica. As secretárias me deram três cuecas de seda com marcas de beijos estampados e um cartãozinho em que se ofereciam para apagá-los. Na hora, pensei que um dos encantos da velhice são as provoca-ções que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está fora do jogo.
Jamais soube quem me mandou um disco que trazia os vinte e quatro prelúdios de Chopin com Stefan Askenase. Os redatores, em sua maioria, me deram livros que estavam na moda. Não havia acabado de desembrulhar os presentes quando Rosa Cabarcas me ligou com a pergunta que eu não queria ouvir: O que aconteceu com a menina? Nada, respondi sem pensar. Você acha que não ter nem acordado a menina é nada?, disse Rosa Cabarcas. Uma mulher não perdoa nunca que um homem a despreze na estréia. Aleguei que a menina não poderia estar tão exausta só de pregar botões e que talvez tenha bancado a adormecida de tanto medo do mau transe. A única coisa grave, disse Rosa, é que ela acha de verdade que você já não serve mais, e eu não gostaria que a menina andasse por aí espalhando isso aos quatro ventos.

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