A invenção de Morel (Adolfo Bioy Casares)

segunda-feira, 3 de maio de 2010 |


A Invenção de Morel, romance do argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), foi publicado originalmente em 1940. Narrado por um fugitivo da justiça, conta a história de sua busca por esconderijo e salvação numa ilha deserta. Após um período solitário, o narrador se surpreende com a presença de pessoas no local. Ele não sabe como elas chegaram lá e nota que seus modos são anacrônicos e seu cotidiano, repetitivo. Atordoado com as mudanças, a princípio evita as pessoas, mas a paixão que brota por uma das visitantes da ilha o leva a quebrar o isolamento. Aos poucos se aproxima dela e de seu mundo e descobre que se chama Faustine. Tenta falar-lhe, mas ela não o ouve, nem o vê. Instigado pelo desejo, ele busca nas entranhas do lugar alguma explicação para o alheamento de Faustine. Obcecado pela moça, assiste ao assédio de outro visitante a ela e sente ciúme. Aos poucos, o mistério se desata. Morel, o homem que assediava Faustine, construíra uma máquina capaz de extrair das coisas e das pessoas uma espécie de essência. O narrador supõe então que Morel recorreu à máquina porque fracassara em sua tentativa de seduzir Faustine, captando secretamente imagens durante uma semana de veraneio e, graças ao movimento da maré, que fazia funcionar seu invento, deixou-as serem reproduzidas eternamente, numa espécie de filme dotado de todas as dimensões possíveis. Esclarecido o enigma, o narrador coloca-se diante de um dilema - contemplar Faustine eternamente ou usar a invenção de Morel, inserir-se em suas imagens e passar a viver no mesmo mundo de Faustine.
Fonte: http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/A_Inven%C3%A7%C3%A3o_de_Morel

Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou. Trouxe a cama para perto da piscina e tomei banho até bem tarde. Era impossível dormir. Dois ou três minutos fora bastavam para converter em suor a água que devia me proteger da espantosa calmaria. De madrugada, um gramofone me despertou. Não pude voltar ao museu para buscar as coisas. Fugi pelos barrancos. Estou nos baixios do sul, entre plantas aquáticas, indignado pelos mosquitos, com mar ou córregos imundos até a cintura, percebendo que antecipei absurdamente minha fuga. Acredito que aquela gente não veio me procurar; talvez não tenham me visto. Mas sigo meu destino; estou desprovido de tudo, confinado ao lugar mais parco, menos habitável da ilha, a pântanos que o mar suprime uma vez por semana.Escrevo isto para deixar testemunho do adverso milagre. Se em poucos dias não morrer afogado ou lutando por minha liberdade, espero escrever a Defesa perante sobreviventes e um Elogio de Malthus. Atacarei, nessas páginas, os devastadores das selvas e dos desertos; demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, da imprensa, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um inferno unânime para os perseguidos.Até agora não pude escrever nada senão esta folha que ontem eu não previa. Quantos são os afazeres na ilha solitária! Como é insuperável a dureza da madeira! Como é maior o espaço que o pássaro movediço!
http://www.4shared.com/document/15ANwzVr/Adolfo_Bioy_Casares_-_A_Inveno.html

Marcello M.

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