A insustentável leveza do ser (Milan Kundera)

segunda-feira, 10 de maio de 2010 |


Num mundo em que as vidas são condicionadas por escolhas irrevogáveis e por acontecimentos fortuitos, quando as coisas só acontecem uma vez a existência parece perder a sua substância, o seu peso. Por isso, diz Milan Kundera, sentimos a intolerável leveza do ser Como em outro grande escritor tcheco, Kafka, a vida para ele é um imenso absurdo, totalmente destituída de qualquer significado: tanto pode ser um sonho como um pesadelo. É nesse clima de imprecisão, que um cenário político opressivo torna por vezes sombrio, que vivem os personagens de Milan Kundera. Dois casais constituem o ponto focal dos acontecimentos: Tomas-Tereza e Sabina-Franz. Entre esses quatro personagens, porém, parece haver uma simbiose constante: os traços de caráter de Tomas vão repetir-se em Sabina, e os de Tereza parecem coincidir em muitos pontos com os de Franz. Tereza destrói, de certa maneira, a vida de Tomas, mas para ele isso não tem qualquer importância, quando Sabina abandona Franz, dá um novo rumo à vida deste, mas também para ele isso não tem importância. As coisas acontecem uma vez só, ou são uma interminável repetição? Qualquer que seja a resposta, ela não é importante. O autor coloca-se neste romance como um observador de suas criaturas, como um comentarista de seus atos. Essa técnica permitelhe fazer digressões sobre problemas do relacionamento humano, principalmente sobre a atração entre os sexos, tema de algumas de suas melhores páginas.
Milan Kundera nasceu em Praga, na Tcheco-Eslováquia, em 1929. Era estudante quando o regime comunista foi estabelecido em seu país. Trabalhou depois como operário, foi músico de jazz e, finalmente, dedicou-se à literatura. A publicação de seu primeiro romance, A brincadeira (1967), foi um dos marcos iniciais do movimento de libertação que culminou na Primavera de Praga. Depois da invasão russa de 1968 seus livros foram proibidos. Em 1975 transferiu-se para a França.

No entanto, desta vez, adormeceu ao lado dela. De manhã percebeu que Tereza, que ainda dormia, segurava sua mão. Teriam ficado de mãos dadas a noite inteira? Era difícil de acreditar. Ela respirava profundamente enquanto dormia, segurava sua mão (com força: ele não conseguia se desvencilhar da pressão) e a pesadissima mala estava ao lado da cama. Não ousava soltar a mão do seu aperto, por temer acordá-la, e virou-se com muito cuidado para observá-la mais à vontade. Mais uma vez, ocorreu-lhe que Tereza era uma criança posta numa cesta untada com resina e abandonada ao sabor da corrente. Como deixar derivar para as águas impetuosas de um rio a cesta onde se abriga uma criança? Se a filha do Faraó não tivesse retirado das águas a cesta do pequeno Moisés, não teria havido o Velho Testamento e toda a nossa civilização! No começo de tantos mitos antigos, existe sem pre alguém que salva uma criança abandonada. Se Pólibo não tivesse recolhido o pequeno Édipo, Sófocles não teria escrito sua mais bela tragédia! Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metátora.
http://www.4shared.com/document/YfriS1Xw/Milan_Kundera_-_A_Insustentvel.html

Marcello M.

2 comentários:

Í.ta** disse...

esse romance é muito bom! é bem escrito, desenvolve muito bem, e inquieta o leitor na relação entre os personagens.

Lílian Alcântara disse...

vai pra minha infinita lista de "preciso ler".