De amor e de sombra (Isabel Allende)

terça-feira, 11 de maio de 2010 |


Isabel Allende, um dos maiores destaques da literatura hispano-americana conta nessa obra - "De amor e de sombra" - uma brilhante história em que o amor de dois jovens, Francisco e Irene, é ameaçado pela sombra da ditadura chilena de Augusto Pinochet. O livro começa por apresentar os personagens: Irene, jovem jornalista aristocrata que vive à margem da política, completamente alheia às atrocidades cometidas pela ditadura militar, e Francisco, fotojornalista oriundo de uma família da baixa burguesia de esquerda que sobrevive com dificuldades. Os dois conhecem-se e começam a trabalhar juntos no caso de uma rapariga, Evangelina Ranquileo, que, segundo dize o povo, faz pequenos milagres. O pitoresco transforma-se em macabro quando a menina é assassinada por um comandante das forças armadas e Irene e Francisco prometem não dar tréguas enquanto não for feita justiça à sua morte. Este é o início de uma espiral de paixão e violência que vai unir inexoravelmente os destinos dos dois jovens e pôr a nu os horrores perpetrados durante um período sangrento da História do Chile – os dezassete anos de Pinochet no poder. Em paralelo com a tragédia de Evangelina Ranquileo, cujo cadáver é encontrado numa mina, juntamente com vários outros cadáveres de vítimas da brutalidade dos militares, Allende relata a pobreza espiritual da mãe de Irene, cega apoiante do regime ditatorial, a perigosa utopia do pai anarquista de Francisco, a vida decrépita dos velhos cujos parentes são dados como desaparecidos ou mesmo o lado humano de alguns militares. Pelo meio, há lugar para belíssimos pormenores de realismo mágico e para o humor e a força de situações que só poderiam ter lugar numa paisagem tão selvagem quanto sofrida, como é a da América do Sul. O segundo romance de Isabel Allende, escrito em 1984, mantém-se actual pela intemporalidade da história de amor que Irene e Francisco vivem, assim como pelo panfleto anti-Pinochet que assume ser. Um contributo para que a História nunca se apague.
A incerteza abalou o sistema nervoso de Beatriz. As amigas recomendaram-lhe cursos de ioga e de meditação oriental para amenizar o sobressalto em que vivia. Quando, com uma certa dificuldade, se punha de cabeça para baixo e com os pés para cima, com respiração abdominal e concentrando a mente no Nirvana, conseguia esquecer os problemas, mas a verdade é que não podia manter-se nessa posição todo o dia e, nos momentos em que pensava em si mesma, surpreendia-se perante a ironia da sua sorte. Convertera-se na esposa de um desaparecido. Muitas vezes dissera que ninguém se sumia no país e que os desaparecidos eram mentiras antipatrióticas. Quando via as mulheres desfiguradas desfilando todas as quintas-feiras na praça, com os retratos dos familiares presos ao peito, afirmava que eram pagas pelo ouro de Moscovo. Jamais imaginou poder encontrar-se um dia na mesma situação dessas mães e esposas que procuravam os seus. Sob o aspecto legal, não era viúva nem o seria antes de passados dez anos, altura em que a lei lhe forneceria o atestado de óbito do marido. Não pôde dispor dos bens deixados por Eusebio Beltrán nem controlar os escorregadios sócios que se evaporaram com as acções das suas empresas. Permaneceu na mansão, simulando aparências de duquesa, mas sem dinheiro para manter a rotina de senhora de bairro rico. Acossada pelas despesas, esteve a um passo de espalhar gasolina pela casa, para que fosse destruída pelas chamas e pudesse receber o seguro. Até que Irene teve a subtil ideia de obter rendimentos com o andar inferior.

1 comentários:

shai disse...

Ameiii de paixão esse livro!
Já li umas trocentas vezes e ainda não me canso de ler!!!
Adoro Isabel Allende e todos os livros dela! Sou super-fã!
Principalmente de "De Amor e de Sombra" e "A Casa dos Espiritos"