As viagens de Gulliver (Jonathan Swift)

domingo, 2 de maio de 2010 |


Crítica social insuperável e clássico absoluto! Obra-prima do irlandês Jonathan Swift, denuncia hipocrisias da sociedade em que vivia e nos mostra diversas facetas da pior parte do comportamento humano. Partindo de um psicologismo extremo, o autor consegue nos mostrar o quão mutável pode ser o ser humano e expõe de uma forma clara o quão moldado são nossos parâmetros de sanidade. Narrando as viagens de Gulliver a quatro longíquas ilhas, o autor consegue prender o leitor de uma forma gigantesca e narrar uma história magnífica.

Após este prefácio, passou a descrever os struldbruggs. Disse que eles agiam como qualquer mortal até cerca dos trinta anos de idade, depois do que se tornavam gradualmente melancólicos e deprimidos até aos oitenta anos de idade. A partir desta altura, que é a idade-limite neste país, partilhavam não só de todas as loucuras e enfermidades das outras pessoas idosas, como ainda de muitas outras resultantes da terrível perspectiva de nunca poderem pôr um fim a tudo aquilo. Tornavam-se não só opiniosos, rabugentos, avarentos, taciturnos, vãos e palradores, como eram incapazes de qualquer afeição natural, que nunca ia para além dos seus netos. A inveja e os desejos impossíveis são as suas paixões prevalecentes. Os principais alvos da sua inveja são os jovens e os que morrem de velhice. Quanto aos primeiros, por se acharem excluídos de toda a possibilidade de prazer; quanto aos segundos, por não poderem, como eles, finalmente descansar um repouso eterno. Não se recordam de nada, a não ser do que aprenderam e observaram na sua juventude e meiaidade, e mesmo isto muito imperfeitamente, sendo preferível uma pessoa apoiar-se nas tradições, que contar com eles para qualquer esclarecimento. Os menos miseráveis são os que sofrem de maior senilidade, tendo perdido completamente a memória. São estes que despertam verdadeiramente piedade, e a quem os mortais dispensam um certo acolhimento e assistência, pois encontram-se isentos de muitos daqueles defeitos que abundam nos outros. Se acaso um struldbrugg casa com outro da mesma espécie, o casamento é muito justamente dissolvido logo que o mais novo de entre eles tenha atingido os oitenta anos, pois a lei determina que àqueles que, sem culpa nenhuma, se vêem condenados a suportar uma vida eterna neste mundo lhes seja poupado o acréscimo à sua miséria, que constituiria o fardo de um consorte. Logo que tenham atingido os oitenta anos de idade, são considerados como mortos por lei. Os seus herdeiros tomam imediatamente posse dos seus haveres, reservando-lhes apenas uma pequena pensão, enquanto os mais pobres são mantidos pela assistência pública. A partir desta altura são impossibilitados de ocupar qualquer lugar de confiança ou mérito, não podem comprar ou arrendar terras, nem servir de testemunhas, tanto em causas civis como criminais. Aos noventa anos, caem-lhe os dentes e o cabelo. Perdem também o paladar, mas comem e bebem tudo o que encontram ao seu alcance, sem qualquer apetite ou satisfação. As doenças a que estavam sujeitos continuam a atormentá-los, sem que haja qualquer modificação no seu estado de saúde. Quando em conversa, esquecem-se dos nomes das coisas e das pessoas, mesmo das que são seus íntimos amigos e parentes. Por esta mesma falta de memória, não se podem dedicar à leitura, pois ainda não vão no fim da linha e já se esqueceram do que leram no princípio; e assim se vêem destituídos do único entretimento que de outro modo teriam à sua disposição. Além disso, como a língua deste país está sujeita a frequentes alterações, os struldbruggs nascidos em determinada época não compreendem os de outra; nem são capazes, passados duzentos anos, de manter uma conversa, para além de algumas palavras gerais, com os mortais seus contemporâneos. E foi isto tudo o que me contaram dos struldbruggs, tanto quanto me é possível recordar. Mais tarde foram-me apresentados pelos meus amigos cinco ou seis deles, de várias idades, em que o mais novo não teria mais de duzentos anos. E, apesar de lhes terem contado que eu era um homem muito viajado, não deixaram transparecer o mais pequeno indício de curiosidade e apenas me pediram que tivesse a bondade de lhes conceder um slumskudask, ou “sinal de reconhecimento”, que consistia numa maneira furtiva de pedir esmola, capítulo em que a lei é bastante rigorosa, visto dependerem de uma assistência pública, apesar de a sua pensão ser bastante reduzida. Estas pobres criaturas são desprezadas e odiadas por todas as camadas do povo, e, quando um deles nasce, a data do seu nascimento é considerada fatídica e recordada de modo muito particular; para se saber a sua idade, terá de se consultar um registo, se é que este foi conservado ou salvaguardado dos distúrbios públicos, o que é muito raro. Porém, o método mais corrente para calcular a sua idade consiste em perguntar-lhes de que reis ou pessoas de destaque se recordam ainda e em seguida ir consultar a história; pois é infalível que o último rei de que se recordam não começou o seu reinado depois de eles terem atingido os oitenta anos de idade. O seu aspecto era repugnante e ofensivo e as mulheres mais horrendas que os homens, pois, além das deformações habituais que a muita idade provoca, a sua decrepitude e decadência ia sendo cada vez mais acentuada pelo amontoar dos anos, constituindo uma visão de pesadelo. Depois de tudo o que ouvi e vi, o leitor facilmente compreenderá porque calei dentro de mim aquela ânsia de viver eternamente. Senti-me profundamente envergonhado pelas ilusões que formulara e na altura pensei que, por mais horrível que a morte fosse, preferiaa, mil vezes, a viver daquele modo. O rei, posto ao par de tudo o que se passara entre mim e os meus amigos, gracejou amavelmente comigo, propondo-me que eu levasse um casal de struldbruggs para o meu país, para ensinar os meus compatriotas a não recearem a morte.
http://www.4shared.com/document/74USV3W3/Jonathan_Swift_-_As_viagens_de.html

*o texto está em português de Portugal, mas se tratando de uma obra-prima, resolvi postar da mesma forma.

Marcello M.

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