Pergunte ao Pó (John Fante)

domingo, 25 de abril de 2010 |


"Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim. Eu tinha um cartão da biblioteca. Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia, muito antes de terminar, que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao pó e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda. Terminei Pergunte ao pó e procurei outros livros de Fante na biblioteca. Encontrei dois: Dago Red e Espere a primavera, Bandini. Eram da mesma ordem, escritos das entranhas e do coração. Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher. Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: "Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!" Fante foi meu deus e eu sabia que os deuses deviam ser deixados em paz, a gente não batia nas suas portas. No entanto, eu gostava de adivinhar onde ele teria morado em Angel's Flight e achava possível que 5 ainda morasse lá. Quase todo dia eu passava por lá e pensava: é esta a janela pela qual Camilla se arrastou? E é aquela a porta do hotel? É aquele o saguão? Nunca fiquei sabendo. Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao pó. Vale dizer, eu o reli neste ano e ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita, porque foi minha primeira descoberta da mágica. Existem outros livros além de Dago Red e Espere a primavera, Bandini. São Full of Life e The Brotherhood of the Grape. E, neste momento, Fante tem um romance em andamento, Sonhos de Bunker Hill. Por meio de outras circunstâncias, finalmente conheci o autor este ano. Existe muito mais na história de John Fante. É uma história de uma terrível sorte e de um terrível destino e de uma rara coragem natural. Algum dia será contada, mas acho que ele não quer que eu a conte aqui. Mas deixem-me dizer que o jeito de suas palavras e o jeito do seu jeito são o mesmo: forte, bom e caloroso. E basta. Agora este livro é seu."
Charles Bukowski
Sentei-me diante da máquina de escrever e continuei a carta. A noite aprofundou-se, as páginas se avolumaram. Ah, se tudo que escrevesse fosse tão fácil como uma carta para Hackmuth! As páginas se amontoavam, vinte e cinco, trinta, até que olhei para o meu umbigo, onde detectei um pneu de gordura. A ironia daquilo! Eu estava engordando: as laranjas estavam me enchendo! Imediatamente fiquei de pé e fiz uma porção de exercícios. Contorci-me, retorci-me e rolei. O suor escorreu e a respiração ficou ofegante. Sedento e exausto, joguei-me na cama. Um copo de leite frio seria ótimo agora. Naquele momento, ouvi uma batida na porta de Hellfrick. E o grunhido de Hellfrick enquanto alguém entrava. Não podia ser outro senão o leiteiro. Olhei para o relógio: eram quase quatro horas. Vesti-me rapidamente: calças, sapatos sem meias e um suéter. O corredor estava deserto, sinistro na luz vermelha de uma velha lâmpada elétrica. Caminhei deliberadamente, nada furtivo, como um homem que vai ao lavatório no fim do corredor. Dois lances de escadas lamurientas e irritantes, e estava no andar térreo. O caminhão vermelho e branco do leite Alden estava parado perto da parede do hotel, na viela encharcada pela lua. Enfiei a mão no caminhão e agarrei duas garrafas de litro firmemente pelo gargalo. Pareciam frescas e deliciosas no meu punho. Eram como entes humanos. Eram tão bonitas, tão gordas e prósperas.
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Marcello M.

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