Octaedro (Julio Cortázar)

domingo, 18 de abril de 2010 |


Agora que escrevo, para outros isto podia ter sido a roleta ou o hipódromo, mas não era dinheiro que eu procurava, em dado momento tinha começado a sentir, a decidir que uma vidraça de janela no metrô podia me trazer a resposta, o encontro com uma felicidade, precisamente aqui, onde tudo acontece sob o signo da mais implacável ruptura, dentro de um tempo subterrâneo que um trajeto entre estações desenha e limita assim inapelavelmente embaixo. Digo ruptura para compreender melhor (teria de compreender tantas coisas desde que comecei a jogar o jogo) aquela esperança de uma convergência que talvez me fosse dada no reflexo em uma vidraça de janela. Ultrapassar a ruptura que as pessoas não parecem observar embora sabe-se lá o que pensam essas pessoas agoniadas que sobem e descem dos vagões do metrô, o que procura além do transporte essa gente que sobe antes ou depois para descer depois ou antes, que só coincide numa zona do vagão onde tudo está decidido por antecipação sem que ninguém possa saber se sairemos juntos, se eu descerei em primeiro lugar ou esse homem magro com um rolo de papéis, se a velha de verde continuará até o fim, se esses meninos descerão agora, é claro que descerão, porque recolhem seus cadernos e suas réguas, aproximam-se rindo e brincando da porta enquanto lá no canto uma jovem se instala para demorar, para permanecer ainda por muitas estações no assento enfim livre, e aquela outra jovem é imprevisível, Ana era imprevisível, mantinha-se muito tesa contra o encosto no assento da janela, já estava lá quando subi na estação Etienne Marcel e um negro abandonou o assento em frente e a ninguém pareceu interessar e eu pude escorregar com uma vaga desculpa por entre os joelhos dos dois passageiros sentados nos assentos externos e fiquei defronte de Ana e quase em seguida, porque tinha descido ao metrô para jogar mais uma vez o jogo, procurei o perfil de Margrit no reflexo da vidraça da janela e pensei que era bonita, que eu gostava de seu cabelo preto com uma espécie de asa breve que penteava em diagonal à testa.
O volume de contos Octaedro, de Julio Cortázer (1914-1984), mostra o escritor argentino no auge de sua criatividade. Trabalhando com um mínimo de elementos formais, parte de um núcleo central para levar-nos as situações incomuns dentro de microcosmos humanos, universos isolados e rodeados por forças ameaçadoras e misteriosas. De repente, no dia-a-dia da realidade familiar e banal, introduz-se o insólito (cf. "Verão" e Pescoço de gatinho negro"). Entre ambos os momentos, assistimos à lenta decomposição do mundo exterior e à chegada do elemento "estranho". Ao rebelar-se contra a lógica impecável e a aparência coerente e clara do mundo pragmático, lança-nos no fantástico. Em cada conto, o real passa a se interpretado como inseparável do imaginário, fazendo supor a existência de outra ordem que desconhecemos. O objetivo do autor é o de criar leis contra o determinismo e a alienação impostos pela vida cotidiana. Uma única ação ocorre limites bem preciso e em nenhum momento dos personagens, que se movem por forças que não se podem explicar apenas com os dados da razão, se perguntam sobre as causas do que lhes sucede. Terminada a narrativa, a incerteza permanece, deixando o leitor desconcertado.

Fonte: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/345032/Octaedro

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Marcello M.

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