Fogo nas entranhas (Pedro Almodóvar)

quinta-feira, 15 de abril de 2010 |

“Para centenas de mulheres madrilenhas, a vida tinha um novo objetivo. O fogo que fulminava suas entranhas não tinha descanso. Os homens não conseguiam acalmá-las totalmente, mas a situação melhorava quando eles estavam dentro delas.”




Os filmes de Pedro Almodóvar sempre trazem cenas possíveis, mas incomuns, de forma suficiente sutil para não abominarmos, por exemplo, a idéia de uma mulher congelando seu marido no freezer de um restaurante, como em Volver. De alguma forma Almodóvar nos faz torcer para que a mocinha raptada em Ata-me apaixone-se pelo seu seqüestrador, na fala mais notável do filme – a mesma do título – terás um orgasmo.

Assim também é a novela Fogo nas entranhas, todos os personagens vivenciam cenas que condenaríamos no horário nobre, mas o autor sabe muito bem convencer-nos da velha idéia liberalista de “afinal, o que é ser normal?”. 

Capítulos curtos e de cenas previsivelmente cinematográficas compõe as 124 deliciosas páginas do livro. Um velho magnata chinês, Ming, dono de uma marca de absorventes, e, suas várias mulheres que sempre o trocam por outras ânsias sexuais; Isidra, aos 70 anos, convencida de que tem 30; Raimunda, sobrinha neta de Isidra, e seus vários amores; Eulália, que nega sexo ao seu marido Roque, enquanto “faz um esforço danado para que todos os problemas do mundo sejam seus”; 

Outros personagens também surgem ao decorrer do livro criando os laços entre as tramas da novela. E são justamente estes laços que montam a história para as personagens, tomando rumos que provavelmente nem eu, nem você, veremos serem escritos ou filmados por outra pessoa se não o madrilenho Pedro Almodóvar. 

Fogo nas entranhas, nenhum outro nome seria mais justo.

Lílian Alcântara

1 comentários:

Lívia Alcântara disse...

nao li ainda. mas um amigo descreveu assim: nos filmes do almodovar, ele tem a limitação justificar a idéia com algo visível e assim expõe o improvável. No livro, ele pode deixar o invisível por conta da imaginação do leitor e descrever o impossível.