Exercícios de estilo (Raymond Queneau)

sexta-feira, 16 de abril de 2010 |

Publicado pela primeira vez em 1947, este livro de Raymond Queneau conta um microconto que parece banal: um homem que vê um estranho duas vezes no mesmo dia. O genial da obra é que essa mesma história é contada 99 vezes com um estilo diferente e o resultado não pode ser chamado de menos que incrível. Queneau ficou conhecido na França pelo ser romance "Zaziê no metrô" em 1959. Um dos maiores defensores do neo-francês, fundou um grupo de escritores de vanguarda na França que, entre outros, Ítalo Calvino fez parte. Recomendável.

Seguem abaixo dois estilos diferentes do conto único do livro:
Anotação

No ônibus S, em hora de aperto. Um cara de uns 26 anos, chapéu mole com cordão em vez de fita, pescoço comprido demais, como se tivesse sido estiado. Sobe e desce gente. O cara discute com o vizinho. Acha que é espremido quando passam.
Tom choramingas, jeito de pirraça. Mal vê um lugar vago, corre pra se aboletar.
Duas horas depois, vejo o mesmo cara pelo Paço de Roma, defronte à estação São Lázaro. Lá vai com outro que diz: "Você devia pôr mais um botão no sobretudo". Mostra onde (no decote) e como (para fechar).

Animismo

Era uma vez um chapéu marrom, de feltro mole e abas caídas, com uma trancinha em volta para enfeitar, um chapéu entre outros, cujo destaque aleatório era mais devido às desigualdades do solo e à sua repercussão pelas rodas do veículo automóvel que o trasportava, a ele o chapéu. A cada parada, as idas e vindas dos circustantes causavam nele, o chapéu, movimentos laterais ocasionalmente assaz pronunciados, o que terminou por irritá-lo, ele o chapéu. Exprimiu então sua ira lá dele chapéu por intermédio de uma voz nem um pouco de feltro, e que se lhe articulava a ele, o chapéu, numa disposição estrutural cuja ovóide de ressonância, óssea, irregularmente perfurada e recoberta com uma camada qualquer de matéria animal situava-se sob si, si o chapéu. Depois foi sentar-se, se o chapéu, se pôr nem tirar.
Uma duas horas mais tarde, a pouco mais de metro e meio do nível do solo, em deslocamento contínuo defronte à estação São Lázaro, lá estava ele, o chapéu. Um desmiolado dizia que devia pôr outro botão no sobretudo... Outro botão... e sobretudo... dizer isto a ele!... É de se comer o chapéu!...
http://www.4shared.com/document/8CD57ha7/Raymond_Queneau_-_Exerccios_de.html

*me perdoem a péssima qualidade da digitalização. não achei outra, mas como esse livro vale a pena ficou essa.

Marcello M.

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