Daniel Faria

terça-feira, 20 de abril de 2010 |


Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros

*

Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em cratera concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava

E se quiséssemos queimar animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é a sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes

Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor

*

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo
A mulheres - ainda que as casas apresentem telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

*

Daniel Faria foi um poeta português, nascido em 1971. Desde cedo tinha o desejo de se tornar sacerdote. O tempo livre, passava-o a escrever e ler. Cursou Teologia e Letras e publicou vários livros. Em 1997, optou pela vida monástica; dois anos mais tarde, porém, ainda como noviço, faleceu após uma queda doméstica. Tinha 28 anos.

Para conhecer mais sobre sua poesia:

Jornal de Poesia

Germina - revista de Literatura e Arte

Modo de Usar & Co - revista de poesia

O livro Poesia, que contém toda a sua obra poética, pode ser encomendado pela Livraria Cultura

(Infelizmente, seu site oficial encontra-se com problemas há tempos)

Bruno de Abreu

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