Cartas a um jovem poeta (Rainer Rilke)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012 |


Rainer Rilker é um dos poetas de língua alemã mais conhecido no Brasil. Um resumo de sua biografia e as traduções de seus livros ao português estão no início do PDF. A versão postada é a da editora LM. São dez cartas trocadas entre Franz Xaver Kappus, na época um aspirante a poeta e Rilke, os dois se corresponderam por 5 anos.

Assim começa a primeira carta:

"Prezado Senhor,

Sua carta só me alcançou há poucos dias. Quero lhe agradecer por sua grande e amável confiança. Mas é só isso o que posso fazer. Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção  crítica.  Não  há  nada  que  toque  menos  uma  obra  de  arte  do  que palavras  de  crítica:  elas  não  passam  de  mal-entendidos  mais  ou  menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente  nos  querem  levar  a  acreditar;  a  maioria  dos  acontecimentos  é indizível,  realiza-se  em  um  espaço  que  nunca  uma  palavra  penetrou,  e  mais indizíveis  do  que  todos  os  acontecimentos  são  as  obras  de  arte,  existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa."

Evito comentar muito pois ainda estou no meio de minha leitura, minhas opiniões não estão maduras. 


http://www.4shared.com/office/FYjhRfEj/rainer_maria_rilke_-_cartas_a_.html

Menina a caminho e outros textos (Raduan Nassar)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012 |

 
Lançado em 1998 e premiado com o Prêmio Jabuti, Menina a caminho e outros textos, é uma coletânea de contos de Raduan Nassar que reúne textos de diversas épocas.
O conto que carrega o nome do livro, Menina a caminho, é um soco no estômago! Primeiro trabalho de Nassar. O narrador leva o conto todo de uma forma tão leve e singela. De forma descritivista, o leitor é levado a imaginar todo o caminho da menina ao longo da cidade e a ruptura se dá uma forma extremamente brutal e inesperada.
Hoje de Madrugada é um convite sensorial como só o Nassar sabe fazer. O leito aguardo durante toda a trama o ato. 
O ventre seco se assemelha a Um copo de cólera. Os dois personagens parecem ser exatamente os mesmos e as acusações exatamente as mesmas, o que não faz dele um conto ruim, mas muito pelo contrário.
Aí pelas três da tarde me mostra uma vida de qualquer um com um final com um quê de Let it be demais.
Já o último conto, Mãozinhas de Seda, é de uma sutileza sem tamanho, assim como toda a obra.
Fica a tristeza de não ter mais obras do Nassar pra devorar, o que pode ser bom, é claro.

Em seguida, um menino vai sussurrar um palavrão escrito no muro que ela não compreenderá. Todo o seu caminho é a preparação para a descoberta de algo cujo sentido lhe foge. Durante a viagem pela cidade, ela é ignorada ou torna-se motivo de chacota. Apenas o velho sapateiro lhe dirige um olhar de carinho. Este seu périplo solitário leva-a ao ponto das atenções da cidade, o armazém de seu Américo, fazendo com que a sua história se misture ao escândalo. Entrando sorrateiramente no armazém fechado, farta-se com a manjubas que encontra no estoque. Como se trata de um texto com um caráter sexual, que se vale da dicção popular, é possível ver neste simples ato de alimentar-se de peixes secos um significado que está além dele. Manjuba é uma designação chula para pênis. A conotação sexual deste episódio é reforçada pelo fato de logo em seguida ela regurgitar o alimento, completando assim o ciclo sexual. Aolongo de seu caminho, ela se fixa em alguns símbolos fálicos, tais como a pá com que um jovem bate o sorvete, a muleta do sapateiro e o cajado na imagem de João Batista.

Marcello M.

Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)

domingo, 18 de dezembro de 2011 |



Há duas maneiras de ler Grande sertão: veredas. A primeira, e que tem sido objeto de muitos ensaios eruditos, volta-se para a verdadeira revolução lingüística, constante na obra de Guimarães Rosa e da qual este livro talvez seja a manifestação mais expressiva. Focalizam-se então a utilização e valorização do vocabulário e da sintaxe regionais (que muitas vezes é o que há de mais clássico na língua), a invenção de palavras com fins expressivos, e muitas outras das várias facetas de sua minuciosa exploração da narrativa. A segunda que independe totalmente de qualquer aparato crítico, é deixar-se simplesmente dominar pela força da história fascinante, extensa, movimentada, imprevista, da qual a linguagem de G.R. é apenas o instrumento adequado, porque reflexo fiel do meio em que se desenrola, e com o qual o autor se identifica de maneira profunda. Em Guimarães Rosa o sertão é intuído e não analisado, reproduzido e não descrito. Ele não pretende explicá-lo, mas recriá-lo, abordando as coisas e os fatos narrados por contato direto e por intuição, reduzindo ao mínimo o papel do conhecimento racional na apreensão da realidade que transmite ao leitor: o sertão é uma visão. Riobaldo, o narrador , dá-nos a chave para o entendimento dessa visão, ao dizer , logo ao início: “O sertão está em toda parte... o sertão é do tamanho do mundo.” É o regional, que se projeta e conquista dimensão universal, sintetizada na condição humana – o homem é o homem, no sertão de Minas ou em qualquer outro lugar do mundo. Como disse Antônio Cândido: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico – tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional, para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor , júbilo, ódio, amor , morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o Mundo.


E, aquilo forte que ele sentia, ia se pegando em mim — mas não como ódio, mais em mim virando tristeza. Enquanto os dois monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia. Até que viesse a poder vingar o histórico de seu pai, ele tresvariava. Durante que estávamos assim fora de marcha em rota, tempo de descanso, em que eu mais amizade queria, Diadorim só falava nos extremos do assunto. Matar, matar, sangue manda sangue. Assim nós dois esperávamos ali, nas cabeceiras da noite, junto em junto. Calados. Me alembro, ah. Os sapos. Sapo tirava saco de sua voz, vozes de osga, idosas. Eu olhava para a beira do rego. A ramagem toda do agrião — o senhor conhece — às horas dá de si uma luz, nessas escuridões: folha a folha, um fosforém — agrião acende de si, feito eletricidade. E eu tinha medo. Medo em alma.
 http://www.4shared.com/document/e6THCj1h/Guimares_Rosa_-_Grande_Serto_V.html

Marcello M.

Sorteio "A intimidade de Paul McCartney"

quarta-feira, 30 de novembro de 2011 |

Quer ganhar o livro "A intimidade de Paul McCartney?

Como divulgado em nosso post anterior o lançamento será segunda-feira dia 5 de dezembro com banda cover e sorteio de exemplares no Rio. Mas você não mora no Rio?
Tudo bem o Cabeceira Digital te ajuda a ganhar o seu!

Para isto basta seguir nossa página no facebook (isso, agora o Cabeceira tem face!) e também a página do evento. 

http://www.facebook.com/FABPaulMcCartney
e
http://www.facebook.com/pages/Cabeceira-Digital/329153993767878

O sorteio será realizado na terça-feira, dia 6.

A Intimidade de Paul McCartney

segunda-feira, 28 de novembro de 2011 |

A Editora Record nos enviou mais essa:

(cliquem na imagem para ampliar)


Informações:
- Data: 05/dezembro
- Local: Big Ben Pub - Rua Muniz Barreto 374
- Horário: das 19:30 a 00:30
- Entrada gratuita

Atrações:
- Banda cover de Beatles
- sorteios de livros
- Os 50 primeiros ganham uma cerveja
- Venda de livros de músicas com desconto

Sorteio: O Cemitério de Praga (Umberto Eco)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011 |

Mais uma vez a Editora Record disponibiliza um livro pra gente sortear aqui. O novo livro de Umberto Eco que já é quase um Best Seller!

Para quem leu/assistiu "O nome da Rosa" e é toda a informação que tem sobre a obra de Umberto Eco, o livro não decepcionará nem um pouco. Está no mesmo nível, seguramente. Trechos da orelha:

"(...) uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres no esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo (...) a disseminação gradual da falsificação conhecida como Protocolos dos sábios de Sião (que serviriam de inspiração a Hitler para os campos de concentração), jesuítas que tramam contra maçons, maçons carbonários e mazzinianos que estrangulam padres, um Garibaldi de pernas tortas, os panos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna e que se escondem ratos, folpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que , entre doses de absinto, planejam explosões e revoltas de rua (...)"

Enfim, a trama é de perder o fôlego. Ainda não posso fazer uma resenha bem estruturada, porque minha mente está desestruturada após o termino do livro. E não podia enrolar com os prazos pro sorteio. O livro é ilustrado, com alguns quadros e desenhos dos personagens (que são todos reais, exceto o narrador), alguns cartazes e panfletos que ao que tudo indica existiram de fato. Me interessei bastante por um destes desenhos: uma propaganda de cocaína "a cura instantânea". O cartaz diz: COCAINE - TOOTHACHE DROPS - Instantaneous Cure! Price 15 Cents. preparaded by the LLOYD MANUFACTURING CO. E tem duas crianças ao lado do anúncio. A passagem a qual se refere o anúncio é com Freud:

_ Havia convidados de qualidade, o filho de Daudet, o doutor Straus, o assustente de Pausteur, o professor Beck, do Instituto Toffano, o grande pintor italiano. Um serão que me custou 14 francos, uma bela gravata preta de Hamburgo, luvas brancas, uma camisa nova e um fraque, pela primeira vez na minha vida. E, pela primeira vez na vida, mandei encurtar minha barba, à francesa. Quanto à timidez, um pouco de cocaína para solar a língua.
_ Cocaína? Não é um veneno?
_ Tudo é veneno, se tomado em doses exageradas, até o vinho. Mas estou estudando há dois anos essa prodigiosa substância. Vejja, a cocaína é um alcaloidema  isolado de uma planta que os indígenas da América mascam para suportar as altitudes andinas. À diferença do ópio e do álcool, provoca estados mentais exaltantes sem com isso ter efeitos negativos. É ótima como analgésico, principalmente em oftalmologia ou na cura da asma, útil no tratamento do alcoolismoe e das toxicomanias, perfeita contra o enjôo marítimo, preciosa para a cura do diabetes, faz desaparecer como por encanto a fome, o sono e a fadiga, é um om substituto do tabaco, cura dispepsias, flatulências, cólicas, gastralgias, hipocondia, irritação espinal, febre do feno, é um precioso reconstituinte na tísica, cura a hemicrania e, em caso de cárie aguda, se inserirmos na cavidade um chumaço de algodão embebido em uma solução a quatro por cento, a dor logo se acalma. E seobretudo é maravilhosa para infundir confiança nos deprimidos, levantar o espírito, tornar as pessoas ativas e otimistas."

Enfim... vamos ao sorteio: 
Twittem "quero ganhar O Cemitério De Praga do @cabeceiradig e da @editora_record http://kingo.to/SXa" 
1. É necessário seguir os dois twitters para participar da promoção.
2. O sorteio será realizado na sexta-feira dia 18/11, via sorteie.me

O século do cinema (Glauber Rocha)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011 |

É impossível resumir o fantástico livro de crítica cinematográfica do Glauber. Citarei então o nome dos capítulos e tirem suas próprias conclusões.

Hollywood (Griffith; Chaplin; Erich von Stroheim; Fritz Lang; Orson Welles; William Wyler; Sombras que vivem; Stanley Kramer; [...])

Neo-realismo (Eyzenstein e a Revolução Soviétyka; Os 12 mandamentos de Nosso Senhor Buñel; A moral de um novo Cristo; Él; Jean Ronoir; [...])

Nouvelle-vague (Cine Cristo às avessas; Vadim; A pele doce do amor; Alphaville; Você gosta de Jean-Luc Godard?[...])

Citei os três módulos e alguns dos capítulos dentro destes, vale a pena conferir pra qualquer um que gosta de cinema. O livro conta com publicações de Glauber em variadas revistas e jornais e editadas pelo próprio colocando-as em formato de livro.


O Congresso do Padre Arpa, Gênova, foi em Fevereiro/Março de 1965, e no México só tive tempo de fazer uma ponta em Simeón del desierto, conheci Buñuel no Estúdio Churubuzco e ele mandou eu ir dançar um roque na figuração beat que se vê no final do filme quando Simeón passa da Torre a Times Square, o Deus que vem matar King Kong!
Bufiuel me disse a propósito de 8 Ih [Otto e Mezzo, 1963]: "Es una película fantastique. Fellini es el mas grand cineasta du monde!".
Eu tinha visto 8 1/2 no México e mandei uma cntica para o Zuenir Ventura que na época dirigia o Diário Carioca revisando minhas opiniões sobre Fellini, a quem eu esculhambara na imprensa baiana como cineasta reacionário - e o juízo de Buñuel sobre o filme que me fundiu a cuca valeu como absolvição do Papa.
O Demônio Fellini era um Deus para Buñuel, minha revisão crítica foi anterior ao encontro com Buñuel mas o que me alertou foi o fato de Buñuel, muy de si mismo ... reconhecer com admiração sem inveja o talento superior de Fellini.
 
 http://www.4shared.com/document/_Dm6SI0D/Rocha_Glauber_-_O_seculo_do_ci.html


  

As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011 |

Um dos mais conhecidos livros do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, trata da história (ou das veias da história) latino-americana até a data em que foi escrito: 1971. A história latino-americana muitas vezes estudada diferenciando países e principalmente colonia hispânica da colônia portuguesa aqui é vista como um todo. Somos todos "farelo do mesmo saco". Galeano evidencia a exploração econômica e política imposta no continente desde muitos anos.

É interessante ler o livro tendo em vista sua data de publicação, 1971, quando vários países da América Latina passavam por período de ditadura militar. Ditadura inclusive que proibiu a venda do livro por muito tempo no Chile, Brasil, Argentina e Uruguai.


http://www.4shared.com/file/eP8-iiD1/Eduardo_Galeano_-_As_veias_abe.html (português)

http://www.4shared.com/document/H-4fg7-K/Galeano_-_Las_Venas_abiertas_d.html (espanhol)a

Lílian Alcântar

O homem invisível (H. G. Wells)

terça-feira, 4 de outubro de 2011 |


Quem não gostaria de experimentar as sensações de ser invisível? Subtrair-se ao olhar de seus semelhantes, que delícia! Ser livre para bisbilhotar sem ser pressentido, desvendar segredos e presenciar atos e fatos que normalmente se ocultam a todos, que perspectiva sedutora! A idéia de ser invisível acarreta uma noção de extrema liberdade, de livre-arbítrio, e traz consigo a de impunidade, pois o indivíduo se furtaria não só à vista dos homens como à lei e à justiça.
O Homem Invisível, de H. G. Wells, mostra, porém, como essa liberdade e essa impunidade são  ilusórias. Griffin, o físico que inventa um meio de se tornar invisível, deixando-se embriagar pela noção do incrível poder de que dispõe, percebe de imediato o outro lado da questão: em pleno inverno, só pode andar nu para não se denunciar, o que lhe provoca espirros e gripe; vê-se obrigado a usar permanentemente máscara e roupas para "existir" e comunicar-se com o mundo; não consegue, e em grande parte devido a seu gênio irascível, estar em boas relações com ninguém, o que lhe frustra as ambições de ser "reconhecido" como gênio e como uma pessoa especial. Ao invés disso, é caçado como um marginal da pior espécie, um inimigo público, o símbolo da maldade e da estranheza que o homem comum enxerga em tudo aquilo que não compreende.
E ele próprio, por fim, parece aceitar e desejar essa marginalidade. Mais ainda: ciente de que a  invisibilidade é uma força, um poder de que se acha investido, sonha com um reinado de Terror sobre as pequenas aldeias que atravessa. Todavia, tendo-se acumpliciado com um vagabundo ao qual confia os livros em que estão escritos os seus trabalhos e a fórmula secreta, em código, de como se fazer invisível, vê-se roubado e recorre a um antigo companheiro de faculdade, a quem conta seu segredo, e que o atraiçoa chamando a polícia. Na perseguição que se segue, o Homem Invisível é morto, e seu corpo vai aos poucos aparecendo aos olhos de todos.
Não se trata de um romance escrito apenas para entretenimento. H. G. Wells não se limita a desenvolver uma história, seu propósito é fazer o leitor refletir. O fim trágico de Griffin, quando dispunha de um invento revolucionário que poderia ser utilizado em favor de todos, revela a incompreensão desse mesmo invento não só de parte do público mas também do próprio inventor, que pretendia usá-lo em proveito exclusivamente pessoal. Em vez da glória e do poder, Griffin obtém  apenas o ódio, o medo e a repugnância. E como todo ser de exceção, é visto com temor e desconfiança.
Aliás, o leitor habitual de Wells já deve ter percebido que em seus romances de antecipação, desde A Máquina do Tempo, Wells coloca o problema da dificuldade ou mesmo da total incomunicação do ser dito excepcional com seus semelhantes. Em O Homem Invisível esta incomunicação atinge o limite da rejeição total com a perseguição e morte do inventor. E o fato de caracterizar Griffin como um albino contribui naturalmente para reforçar essa idéia. Griffin já era, antes de sua descoberta, um ser de exceção, um marginal dentro da sociedade, estigmatizado pelo seu mal incurável. O que provavelmente o fez tão irritadiço e certamente colaborou para a sua ruína.

O estranho não ia à igreja e, na verdade, não fazia a menor diferença, nem em seu vestuário entre o domingo e osoutros dias não religiosos. Trabalhava, na opinião da sra. Hall, sem a menor regularidade. Alguns dias descia cedo e atarefava-se sem parar. Em outros, levantava-se tarde, andava pelo quarto, resmungando alto, horas a fio, fumava, e dormia na poltrona junto à lareira. Não tinha a menor  comunicação com o mundo para além da aldeia. Seu humor continuava a ser imprevisível; a maior parte do tempo tinha a atitude de um homem que sofria uma provação quase insuportável e, de vez em quando, partia, arrancava, esmagava ou quebrava coisas, em acessos espasmódicos de violência. Parecia viver sob uma irritação crônica, da maior intensidade. O hábito de falar sozinho em voz baixa ia se agravando cada vez mais, porém, embora a sra. Hall ouvisse atentamente, tudo lhe parecia sem pé nem cabeça. Raramente saía durante o dia mas, ao cair da tarde, tremendamente embuçado, quer o tempo estivesse frio ou não, fazia-o, escolhendo os caminhos mais desertos e sombreados por árvores ou encostas. Seus óculos enormes e o horrível rosto enfaixado, sob o toldo do chapéu, surgiam da escuridão repentina e desagradavelmente diante de um ou outro trabalhador a caminho de casa; e Teddy Henfrey, tropeçando à saída do "Scarlet Coat", uma noite, às nove e meia, assustou-se vergonhosamente com a cabeça do estranho, que parecia uma caveira (estava caminhando de chapéu na mão), subitamente iluminada pela luz da porta aberta. As crianças que o viam à noite sonhavam com fantasmas e era discutível se ele detestava os garotos mais do que estes o detestavam, ou o inverso — mas, certamente, havia uma aversão bem definida de ambos os lados.
  http://www.4shared.com/document/Hk8sGIYB/HG_Wells_-_O_Homem_Invisvel.html

Marcello M.

Avalovara (Osman Lins)

domingo, 11 de setembro de 2011 |


Osman Lins é autor de várias obras importantes para a Literatura Brasileira. Dentre elas, o romance Avalovara (1973) se destaca pela engenharia literária elaborada sobre uma espiral e um quadrado, traçados com base no palíndromo sator arepo tenet opera rotas. Numa analogia referente a própria construção narrativa, qualquer que seja o percurso de leitura o sentido da obra é o mesmo.

A história diz respeito a Abel, um homem que quer se tornar escritor e ao longo de sua trajetória se envolve com três mulheres: Annelise Ross, Cecília e uma terceira, representada apenas por um símbolo. Numa reciprocidade, os personagens atravessam uma rede complexa de questionamentos sobre liberdade, amor, tempo, entre outros temas que surgem numa sempre referência às oito pequenas narrativas que formam o romance, narrativas que descrevem uma órbita de reflexões sobre o mundo, entre aquilo que é humano ou divino, físico ou metafísico, cujo centro é Abel.

O experimentalismo formal da estrutura narrativa dá passagem da representação do plano psicológico para a exploração da linguagem no fluxo da prosa literária, de modo que a organização do romance revela-se como um recurso de Osman Lins para estabelecer uma relação narratária entre espaço e tempo que vai além da mera representação do real, pois define-se como uma simbologia para os questionamentos existenciais e a busca de uma identidade ou de uma resposta para Abel.

Essa relação narratária, entretanto, demonstra uma trajetória que só traz mais dúvidas e desterro (linguístico, espacial, temporal e sentimental) ao protagonista, ao invés de uma possível auto-compreensão de suas relações e das relações humanas de maneira geral.

O trajeto de Abel que se inicia de Pernambuco à Europa, finda-se em São Paulo, onde ele encontra a plenitude e o êxtase do amor e da criação.

 Trecho de Avalovara, N2, pag. 354
Transitamos entre nós, vamos de mim a mim eu eu nós eu eu de mim a mim, laço e oito, boca e boca, transitamos e somos, a esfera circunscreve-nos e nós próprios uma esfera, boca e boca (de quem?) coxas braços joelhos bunda orelhas (de quem?) membro garganta bainhas rorantes o prazer formando-se os culhões acesos cabeleiras ais. Relâmpagos arabescos convulsos lento rolar dos trovões estrondos dos trovões carradas de pedrouços entornados sobre lastro de madeira uma explosão atira-os para o ar a sala treme cintilam cristais lustres vidros caixilhos moldura nuvens de chuva açoitadas edifícios pára-raios antenas de TV.
Descrição presente na parte posterior da 5ªed:
Poema? Romance? Ensaio ficcional? Fábula metalingüística? Publicada em 1973, a obra máxima do pernambucano Osman Lins continua a instigar novos leitores. Livro único, que desafia os gêneros, Avalovara é, antes de mais nada, um mergulho vertiginoso no cerne da linguagem: lá onde os nomes fecundam-se mutuamente à espera de realidades que ainda não nasceram. Com habilidade magistral, que modula cada frase, cada som, Osman Lins intercala oito temas narrativos que atravessam tempos e espaços distintos, saltando de Amsterdam a Recife, de Recife à Roma Antiga, daí a São Paulo e vice-versa, formando um esplêndido conjunto, no qual o próprio livro, em sua concepção, tratamento e estrutura, torna-se uma imagem de totalidade, uma cosmogonia.


Mariana G.